"Give us Barabbas" - Illustrations from volume 9 of The Bible and its Story Taught by One Thousand Picture Lessons, edited by Charles F. Horne and Julius A. Bewer, published in 1910.
Quando
Jesus nasceu, Israel não era mais Israel. Era chamada agora pelos
conquistadores romanos de Palestina, fatiada em diversas regiões
administrativas controladas por fantoches de Roma como os Herodes
(Antipas na Galileia e Filipe na Idumeia) e por um representante
direto de Roma na Judeia, o governador Pôncio Pilatos.
Esta
dominação ocorreu após o esfacelamento da dinastia dos Hasmoneus,
o último governo judaico após as guerras judaicas de libertação
contra o império selêucida (que impusera a helenização forçada
dos judeus) deflagrada pelos Macabeus. Mas este breve período de
governo judaico careceu de legitimidade junto ao povo, visto que a
dinastia hasmoneu não era de origem davídica e sem o sumo-sacerdote
era de origem aarônica.
Este
vácuo político religioso somado à ocupação e opressão
estrangeira levou ao povo judeu a ansiar pela vinda do Messias, mas
não daquele descrito pelo profeta Isaías no capítulo 53 de seu
livro como o servo sofredor, mas um messias político, guerreiro que
libertasse o povo de seus inimigos externos.
Mas
alguns judeus se cansaram de esperar pelo Messias e resolveram agir.
Surgiram os zelotes – guerrilheiros para os judeus, terroristas
para os romanos – que por meio de emboscadas e ataques surpresa,
lutavam sem sucesso contra a ocupação romana.
Então
veio Jesus. Mas sua mensagem não era o que se esperava: não veio
falar de uma libertação de um inimigo externo, mas sim de um
interno, o pecado: “arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc
1.15) era sua mensagem. Pior ainda sua mensagem era claramente
pacifista: “Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra;
e ao que te houver tirado a capa, não lhe negues também a túnica.”
(Lc 6.19. Seu desapego por questões políticas era tanto que não
questionou o pagamento de tributo ao império pagão e opressor: “dai
pois a César o que é de César” (Lc 20.25). Para que não
restasse nenhuma dúvida, deixou claro à Pilatos que seu reino –
sim Jesus é um Rei – não tem conotação política - “meu reino
não é deste mundo” (Jo 18.36).
De
fato, Jesus era um messias diferente daquele que os judeus tanto
esperavam em seu imaginário. Eles queriam alguém que resolvesse
logo a situação, que com um único golpe de espada mágico
expulsasse os inimigos do povo, da Lei e de Jeová. Um líder
guerreiro de braço forte, como havia sido Davi, afinal, o Messias
não seria filho de Davi?
Então
Pilatos propôs uma eleição direta ao povo de Jerusalém:
“Ora,
no dia da festa costumava soltar-lhes um preso qualquer que eles
pedissem.
E havia um chamado Barrabás, que, preso com outros
amotinado- res, tinha num motim cometido uma morte.
E a
multidão, dando gritos, começou a pedir que fizesse como sempre
lhes tinha feito.
E Pilatos lhes respondeu, dizendo: Quereis que
vos solte o Rei dos Judeus?
Porque ele bem sabia que por inveja
os principais dos sacerdotes o tinham entregado.
Mas os
principais dos sacerdotes incitaram a multidão para que fosse solto
antes Barrabás.
E Pilatos, respondendo, lhes disse outra vez:
Que quereis, pois, que faça daquele a quem chamais Rei dos Judeus?
E
eles tornaram a clamar: Crucifica-o.”
Marcos
15:6-13
Para
a multidão, a mensagem de Jesus de amor ao próximo, perdão ao
inimigo, de diálogo e reconciliação com párias de seu tempo
(leprosos, publicanos corruptos e samaritanos) era um escândalo para
o povo, assim como sua denúncia da espiritualidade vazia era um
perigo para os líderes religiosos de seu tempo. Para estes, Jesus
era um fraco, alguém que só tinha palavras a oferecer; nos dias de
hoje diriam que era só “mimimi”.
Então
o povo votou na única escolha lógica e racional. Tempos extremos
exigem medidas extremas. Escolheram a Barrabás, o homem da espada.
Barrabás
foi varrido para o limbo da história. Fora da Bíblia, ele não
existe. Sua liderança política contra os romanos se mostrou um
engodo. Mas os judeus não desistiram de conquistar sua libertação
à força pois Deus estaria com eles, afinal, eram o povo escolhido.
De fato, décadas depois eclodiu uma nova revolta judaica. Mas no ano
70 d.C. o general Tito de Roma invadiu uma Jerusalém já
enfraquecida por disputas internas entre os diversos grupos de
rebeldes judeus, cada um com seu próprio messias. Um banho de sangue
varreu as ruas da cidade. O templo foi destruído e nunca mais
reerguido. O povo judeu, mais uma vez espalhado pelo mundo.
Enquanto
isso, os seguidores do Messias rejeitado, crucificado e ressuscitado,
também se espalhavam pelo mundo conquistando-o não pela força da
espada, mas pela força do mesmo discurso de seu Mestre:
“arrependei-vos e crede no evangelho”.
Em
nosso país e no mundo vemos um fenômeno político em pleno
desenvolvimento: neste mundo pós-moderno, a crise de credibilidade
das instituições (governos, partidos, mídia e até mesmo igrejas)
tem levado a muitos a rejeitar os princípios básicos da democracia
e a sonharem com líderes que resolvam seus problemas com uma
“canetada” só. Não é à toa que líderes autocráticos como
Putin, Erdogan, Chávez, Trump têm se levantado no mundo. Também
não é a primeira vez que isto acontece. Na primeira metade do
século XX outros se levantaram: Franco, Mussolini, Stalin e, Hitler.
O resultado todos nós conhecemos.
Porém,
há uma diferença entre os líderes populistas de hoje e os do
passado. Os de hoje, todos eles, chegaram ao poder legitima e
democraticamente eleitos pelo voto popular. Depois de eleitos,
elaboram mecanismos para enfraquecerem ou subordinarem os outros
entes da República (Legislativo e Judiciário) além de se colocarem
em guerra aberta contra um importante representante da sociedade
civil: a imprensa livre. Para que seus planos de perpetuação do
poder se concretizem é também necessário uma legião de adoradores
no meio do povo que os defendam contra tudo e contra todos e uma
oposição amordaçada que não consiga denunciar seus desmandos.
O
populismo não é de direita nem de esquerda, ele é essencialmente
idólatra, voltado para a adoração cega e acrítica de um líder
como o salvador da pátria, o redentor da nação, ou seja, estamos
falando de um tipo de anticristo. Alguém que tenta trazer para si
atributos que somente devem pertencer a uma única pessoa em toda a
História.
No
Brasil, vemos isto se repetindo inúmeras vezes ao longo de nossa
história: Getúlio Vargas, o pai dos pobres. Jânio Quadros, o
não-polítoco contra a corrupção, Fernando Collor, o caçador de
Marajás. Lula, o novo Pai dos pobres. Jair Bolsonaro, o mito.
Jair
Messias Bolsonaro tem seduzido a uma grande parcela da população
brasileira, especialmente entre evangélicos com seu discurso
conservador contra uma onda liberalizante que tem varrido nosso país
de forma deliberada e organizada à qual fazem parte partidos
políticos, empresas de mídia e meio acadêmico.
Esta
onda é real e é justificável o receio que ela tem causado nas
famílias e igrejas. Bolsonaro encarnou para estas pessoas a solução
fácil para um problema complexo. A questão é o preço a se pagar
por esta solução. E sempre há um preço. Junto com seu discurso
conservador há outro discurso que é comprado junto e que nunca fez
parte das aspirações da comunidade evangélica brasileira:
enfraquecimento das instituições democráticas, valorização do
uso da violência e da força – não apenas policial mas também
dos “cidadãos de bem” - contra a criminalidade, o uso do deboche
e do escárnio contra grupos com os quais não se simpatiza, tais
como mulheres, quilombolas, etc.
Por
que este fenômeno acontece? A igreja está com medo e acovardada.
Uma igreja que não ora mais, que não evangeliza mais, que não
proclama mais o evangelho da salvação custe o que custar e que
ficou confortável em seu ambiente social está vendo o mundo à sua
volta se transformar e crescer contra ela. Uma sociedade que no passado era cristã, hoje se trona pós-cristã e até mesmo anti-cristã. Mas Cristo havia dito que nos enviaria como ovelhas no
meio de lobos, porém a igreja moderna parece não acreditar mais que o bom pastor a
protegerá, então parece estar querendo contratar um segurança para afugentar os
lobos.
Uma
igreja que embora tenha crescido na sociedade brasileira não se fez
relevante nesta mesma sociedade e, por isso, tem medo de um
plebiscito acerca do aborto, pois não sabe o como a sociedade se
posicionará acerca desta questão. Esta igreja está tão consciente
que não fez o suficiente para esclarecer as pessoas sobre a
monstruosidade que é o aborto que chega ao ponto de confundir ser à
favor do plebiscito com ser à favor do aborto em si. Esta igreja tem
medo que o povo brasileiro diga sim, por isso sonha com um líder que
autoritariamente diga não por ela.
Mas
isto em si mesmo, embora triste não é o real problema.
Bolsonaro
também não é o problema. Na verdade, não há problema algum em
cristãos darem à ele um voto de confiança por acreditarem que ele
seja o melhor candidato para o atual momento do país. O problema é
ver cristãos praticando idolatria.
O
Salmo 115.8 afirma que idólatras tornam-se semelhantes aos seus
ídolos. Por isso, fiquei realmente assustado e triste ao ver pessoas
que se identificam como cristãos fazendo uma campanha apaixonada,
agressiva e até mesmo debochada do candidato Jair Bolsonaro.
Ironicamente,
Bolsonaro, o candidato que nestas eleições melhor representa o
messianismo político, tem Messias como seu nome do meio. Alguns
deles chegaram até mesmo a afirmar que “Bolsonaro é o messias que
salvará o país”. Isto sim, é preocupante.
Creio
firmemente que um cristão com seus olhos fitos em Cristo participa
de um processo eleitoral de forma crítica e desapaixonada, pois sabe
que a verdadeira solução para os problemas deste país não virá
de mãos humanas mas por meio de uma verdadeira conversão de nosso
povo a Cristo, por meio do arrependimento dos pecados e da busca por
se viver segundo os padrões do Reino. Este país não mudará de
cima para baixo, mas de dentro para fora. Mas para que isto aconteça,
para que o aborto se torne em uma lembrança amarga do passado. Para
que, nossos presídios fiquem vazios por que crimes não são mas
cometidos, para que a mulher, o negro e o pobre tenham o
reconhecimento e o tratamento digno a que tem direito, é preciso que
a Igreja saia de sua letargia e pregue, propagandeie o verdeiro
Messias que irá redimir esta nação corrompida pelo pecado. E isto
é nossa missão como igreja mas, como diz Paulo: “Como, pois,
invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem
não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue?” Rm 10.14
É
fundamental que a igreja brasileira perca seu medo, pois este além
de ser um péssimo conselheiro é inimigo da fé. É fundamental que
ela entenda que é uma minoria, aprisco de ovelhas em meio a lobos,
embaixadora de um Reino vindouro que não é este e proclamadora de
que ele está às portas.
Mas
para isso é necessário que façamos as escolhas certas e não estou
falando das próximas eleições.
Quando
entregamos nosso coração e nossas esperanças a um outro messias
que não o verdadeiro e único, estamos também trocando os
princípios e valores do Reino por outros princípios e valores que,
por mais parecidos que sejam, não são iguais. Isto é válido para
qualquer cristão que idolatre ideologias, sejam elas de direita ou
de esquerda. Quando a igreja se identifica com uma ideologia humana,
ela automaticamente deixas de interpretar o mundo à luz do evangelho
de Cristo para interpretá-lo à luz de Karl Marx, Adam Smith, Simone
de Beauvoir ou mesmo Adolph Hitler. Deus exige exclusividade. Para um
verdadeiro cristão, bandido bom não é bandido morto, tampouco o
bandido é uma pobre vítima da sociedade. Um bandido, tal qual o que
foi crucificado ao lado de nosso Senhor, é um pecador que, como cada
um de nós, precisa desesperadamente de um encontro com Cristo e ter
sua vida transformada.
O
Israel do passado desprezou a Jesus por não se parecer com o padrão
messiânico que eles imaginavam e então escolheram a Barrabás. A
pergunta que me faço hoje olhando para a igreja brasileira de hoje
é: será que nós, no lugar deles, escolheríamos diferente?
“Portanto,
também nós, considerando que estamos rodeados por tão grande nuvem
de testemunhas, desembaracemo-nos de tudo o que nos atrapalha e do
pecado que nos envolve, e corramos com perseverança a corrida que
nos está proposta, olhando
fixamente para o Autor e Consumador da fé: Jesus, o qual, por causa
do júbilo que lhe fora proposto, suportou a cruz, desprezando a
vergonha, e assentou-se à direita do trono de Deus.” Hb
12.1,2
sábado, 18 de agosto de 2018
quarta-feira, 13 de setembro de 2017
Santander - um case sobre Liberdade de Expressão e Opinião Pública
Percebo
uma clara divisão entre aqueles que acham que existem limites para a
produção artística e aqueles que pensam exatamente o contrário.
Eu
vejo a Arte como uma forma de expressão, uma ferramenta de
comunicação. Seja ela direta ou metafórica, sua estética está a
serviço de uma mensagem e não há mensagem que não seja fruto de
uma visão de mundo, de uma ideologia, ainda que a intenção do
artista com sua obra não tenha um caráter político-partidário,
ainda que vise o puro entretenimento, sua produção artística será
fruto de suas aspirações, visões conceitos e – por que não –
preconceitos coletados ao longo de sua existência.
Isto
posto, uma produção artística ao ser exposta ao público, tem de
estar aberta tanto ao aplauso quanto à vaia, tanto ao sucesso de
público quanto ao ostracismo, tanto à geração de reflexão quanto
à incompreensão.
Ou
seja, uma obra de arte não está imune à crítica, nem mesmo a
execração pública se esta não for considerada boa o suficiente,
não for compreendida ou se sua intenção for chocar o distinto
público.
Esta
postura de nossos "formadores de opinião" de que não
temos o direito de externar a nossa contrariedade ou indignação
porque não temos bagagem cultural para apreciar a arte e ao fazermos
expomos nossa ignorância não passa de elitismo preconceituoso. Se
você gosta de uma manifestação artística, você não apenas
aplaude como recomenda. Se você não gosta, você não aplaude, vaia
e não recomenda. Se, porém, a manifestação artística de agride,
você devolve a agressão na forma de protesto e boicote. Foi
exatamente isto que aconteceu com a exposição patrocinada pelo
Santander Cultural. Uma sociedade, por mais plural que seja, é feita
de valores, crenças e aspirações comuns, por isso, cabe esclarecer
que existem limites que não devem ser ultrapassados, nem mesmo pela
arte, ainda mais se esta se propõe a ter uma função
conscientizadora a respeito de alguma causa.
Estamos
falando de ilustrações de Nossa Senhora com um bebê chimpanzé no
colo com uma típica auréola de santidade sobre sua cabeça; de
hóstias com nomes de órgãos humanos e termos chulos escritos nela,
de uma imagem de Cristo com múltiplos braços segurando alguns
objetos de cunho sexual e de uma quadro com diversos personagens
praticando sexo de múltiplas formas, inclusive com um animal.
Aqueles
que defendem a liberdade artística e de expressão devem entender
que esta regra vale para os dois lados, tanto o artista quanto o
público tem igual direito de se expressar. E foi exatamente isto que
aconteceu neste caso: o banco promotor do evento teve a liberdade
artística de escolher as peças que queria expor e povo teve a
liberdade de expressão de criticar algumas peças desta mostra. Quem
encerrou a exposição não foi o poder público mas o próprio banco
que, em uma nota, reconheceu que algumas peças expostas, de fato,
feriam crenças e sensibilidades e que isto não representava um ato
de respeito a diversidade. Afinal, uma enorme parcela da população
foi agredida em suas crenças e valores. Ou o propalado conceito de
respeito a diversidade só vale para alguns?
Há limites para a Arte? E se a exposição ao invés de ilustração de zoofilia fosse uma foto de um homem abusando de um animal, seria também arte? E se, ao invés de uma foto fosse uma performance ao vivo, seria também arte? E se, a temática fosse arte nazista, exaltando uma suposta raça pura e ridicularizando judeus, negros e homossexuais, será que os atuais defensores da liberdade de expressão também apoiariam esta exposição ou se juntariam aos demais a pregar o seu boicote? Sim, há limites para a Arte, como há limites para tudo nesta vida.
Claramente
o conteúdo desta mostra não era adequado para crianças, mas a
organização da mostra não pensa assim.
Segundo
o jornal Gazeta do Povo:
“Uma
das medidas destinadas ao público estudantil em relação à
Queermuseu foi a impressão de folders explicativos, de 24
páginas, contendo textos sobre os quadros. A tiragem prevista foi de
15 mil exemplares. Também estavam previstas impressões de mil
unidades de um material chamado de Caderno do Professor, destinado a
docentes que acompanhassem os estudantes no centro cultural.”
Qual
o objetivo de expor crianças a este tipo de conteúdo?
Conscientização, dirão seus defensores. Doutrinação, dirão seus
detratores. Esta é uma questão semântica:
se concordamos com a causa, chamamos de conscientização, se não,
chamamos de doutrinação.
Para
mim, claramente era uma ferramenta de doutrinação ideológica. Mas
o respeitável público disse não. Respeitemos a vontade do público.
Quanto
ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto,
tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo
o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor,
nisso pensai. Filipenses 4:8
sexta-feira, 19 de agosto de 2016
Reforma, Pentecostalismo e Star Trek
Quem
me conhece sabe que sou meio nerd. Tá bom, bastante nerd.
E um bom nerd que se preze sabe a diferença entre Star
Wars e Star Trek.
Star
Trek (antigamente conhecida no Brasil como Jornada nas Estrelas)
era uma série de TV de ficção científica criada na década de 60
por Gene Rodenberry no auge da Guerra Fria e que contava as aventuras
do capitão Kirk e sua tripulação multiétnica da nave estelar
Enterprise “audaciosamente indo onde nenhum homem jamais
esteve”. A série original durou apenas 3 anos mas teve vários
reprises, deu origem a diversas séries derivadas e a inúmeros
filmes no cinema.Já Star Wars (antes conhecida no Brasil como Guerra nas Estrelas), criada por George Lucas, é uma série de filmes para o cinema iniciada no final dos anos 70. Embora pareça ficção científica, na verdade é uma fantasia espacial que conta a saga da família Skywalker a partir de Anakin (que viria a se tornar no icônico vilão Dart Vader) e depois por seus filhos Luke e Leia. Já está no sétimo filme e uma legião de fãs aguarda ansiosamente o oitavo. Confundir uma série com a outra é quase uma ofensa pessoal para seus ardorosos fãs.
Talvez você não saiba, mas sou um trekker, isto é, um fã de Jornada nas Estrelas. Estou escrevendo este texto com minha miniatura da Enterprise em frente ao monitor e minha caneca de café com o rosto do capitão Kirk, senhor Spock e o dr. McKoy ao lado.
Mas o que isto tem a haver com Reforma e Pentecostalismo?
Neste ano, Star Trek comemora 50 anos do lançamento da série e muitos afirmam que o sucesso da série clássica se devia a forte química que havia entre os três personagens principais – aqueles da minha caneca. Mas mais tarde eu volto a este assunto.
Ano que vem serão comemorados os 500 anos da Reforma Protestante, cujo evento-marco foi a fixação por Martinho Lutero de 95 teses na porta da igreja de Wittenberg na Alemanha em 1517, mudando para sempre a história do cristianismo ocidental.
O protestantismo rompeu o monopólio da interpretação da Bíblia, defendeu a separação entre a Igreja e o Estado, e quebrou paradigmas ao retirar do sacerdote a mediação entre os homens e Deus proclamando o sacerdócio universal dos crentes. Seu fervor evangelístico e sua produção teológica levaram a se espalhar rapidamente não apenas na Europa mas em todos os continentes.
Porém, com o advento do Iluminismo e a hegemonia do pensamento racionalista, pouco a pouco, a teologia protestante foi se afastando de seu fervor inicial e de sua devoção à Bíblia como texto sagrado, até desaguar no século XIX em uma aversão ao sobrenatural e ao miraculoso que, muito contribuiu para o esfriamento espiritual de toda a Europa.
Além disto, neste ano de 2016 o Brasil sediará a 24a. Conferência Mundial Pentecostal, em São Paulo.
Embora já centenário, o pentecostalismo parece ser a antítese do protestantismo do início do século XX: espontâneo, popular, emocional mas, acima de tudo, fervorosamente aberto ao sopro do Espírito Santo. Hoje, não há dúvida de que o cristianismo que tem crescido no mundo, especialmente nos países pobres e em desenvolvimento, é o pentecostal. Mas nele também há senões.
Tanto nos EUA quanto no Brasil, o movimento pentecostal nasceu nas comunidades mais humildes, sendo rechaçado e discriminado pelas elites sociais e religiosas de seu tempo. Não é de se estranhar que seus pioneiros, especialmente no Brasil, tenham desenvolvido um forte anti-intelectualismo e, com base no que viam acontecer nas igrejas protestantes históricas, medo de que o estudo teológico viesse a enfraquecer a sua fé e a sua comunhão com Deus. Mas esta postura teve um alto preço. A falta de um arcabouço teológico mais profundo levou o pentecostalismo a se tornar um solo fértil para que surgissem algumas igrejas de forte radicalismo nos costumes e também para um misticismo não bíblico e até mesmo sincrético.
De um lado, uma igreja extremamente racional. De outro, uma igreja altamente emocional. Ambas mutuamente se estranhando, liturgicamente, teologicamente e culturalmente. E isto me lembra Star Trek.
Como citei no início do meu texto, a famosa série sessentista era composta por uma carismática trinca de personagens: o capitão Kirk, o oficial de ciências Spock e o médico da nave, dr. McKoy.
Um dos mais famosos personagens da cultura pop de todos os tempos, Spock era um extraterrestre do planeta Vulcano. Filho de pai vulcano e mãe terráquea, ele foi criado segundo a cultura vulcana na qual os sentimentos devem ser todos eliminados pois somente pela lógica se poderia suplantar a selvageria. Por isso, o personagem magistralmente interpretado pelo recentemente falecido Leonard Nimoy (quase) nunca sorria. O “quase” se deve ao fato de que, de fato, Spock tinha sentimentos, mas devido a sua cultura vulcana ele os escondia de todos. Sua frase mais famosa no seriado era saudação vulcana “vida longa e próspera”.
Por outro lado, o doutor McCoy era seu oposto: passional, irritadiço, falava o que lhe vinha à cabeça e com frequência se irritava com a frieza de Spock diante das mais desesperadoras situações. Eram momentos deliciosos na série clássica as birras e provocações mútuas entre os dois personagens.
Os dois eram os melhores amigos do capitão da USS Enterprise, James T. Kirk, o qual parecia ser a junção perfeita das melhores qualidades de ambos, alternando nos momentos certos a frieza necessária para tomar decisões com o envolvimento emocional com sua tripulação e demais pessoas que passaram pela série, tão importante para que se queira realmente ajudá-los em seus problemas. Não raro, Spock e McCoy se surpreendiam com a forma como o capitão Kirk conseguia salvar o dia no final de cada episódio.
Não é muito difícil associar o jeito vulcano de ser do oficial de ciências da Enterprise com o estilo formal, intelectualizado e um tanto frio das igrejas protestantes clássicas. De igual modo, é visível a passionalidade do dr. McCoy em muitas atitudes das igrejas pentecostais.
Creio que a igreja do século XXI tem de ser menos Spock e McCoy e ser mais Kirk, ou seja, ao invés de se criticarem mutuamente, deveriam aprender com a plenitude de Cristo a se tornarem mais equilibradas e centradas e, ao mesmo tempo, intelectualmente preparadas e calorosamente amorosas.
Afinal, estamos todos embarcados em um mesmo empreendimento (em inglês, enterprise) chamado Igreja, e não vai ser brigando uns com os outros que auxiliaremos nosso Eterno Capitão a levar a tripulação desta nave terrestre aos céus, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve.
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
Comunicação na família
- O
que há querida? Você está tão calada?
- Eu?
nada.
- Como
nada? Estou vendo o seu rosto sério. O que foi?
- Nada.
- Pela
sua cara, aconteceu tudo. O que foi?
- Vai
dizer que você não sabe?
- Mas
como vou saber se você disse?
- E
precisa?
Quem
nunca passou ou presenciou um diálogo assim? Embora a comunicação
seja algo fundamental para a convivência e o relacionamento humanos,
nem sempre ela é fácil, mesmo dentro do lar. Afinal, homens e
mulheres, adultos e crianças, tem idades, linhas de raciocínio,
criação, culturas e idades diferentes e, por isso, formas
diferentes de entenderem e se comunicarem.
Vejamos
alguns elementos da boa comunicação:
LINGUAGEM
– A arte de se comunicar
Quem
|
diz
o quê
|
Em
que meio
|
Como
|
Para
quem
|
Comunicador
|
mensagem
|
Visual
(Escrita, Pintada, Desenhada ou Gesticulada
|
Linguagem
|
Receptor
|
Áudio
(Falada ou Cantada)
|
||||
Áudiovisual
|
Para
que haja comunicação, é necessário que comunicador e receptor
possuam uma mesma linguagem, isto é, que se utilizem de um grupo de
símbolos estruturados de maneira a ter um mesmo significado para
ambos.
As
gírias são um código diretamente ligado ao grupo social ao qual o
indivíduo está integrado. Todo grupo fechado possui sua gíria.
Ex.: Contrução Civil, militares, crentes, etc.
Um
grupo fértil para gírias são os adolescentes. Enquanto nos demais
grupos as gírias se mantém inalteradas durante um muito tempo, as
gírias dos adolescentes mudam constantemente, dificultando o seu
acompanhamento por observadores externos ao grupo, como os pais, por
exemplo.
CULTURA
– O chão sobre o qual está alicerçada a linguagem
Para
se comunicar efetivamente com seus filhos, é necessário se
conhecer, e bem, o caldo cultural no qual estão imersos. O que vêem,
ouvem, leem. Quais são seus referenciais de vida? Que
personalidades admiram ou desprezam? Quais seus sonhos e aspirações?
Sem conhecer esses elementos um diálogo aberto se torna muito
difícil.
ADOLESCÊNCIA
– Segundo o pr. Eliezer Morais a adolescência é “uma etapa onde
ocorrem as mais importantes transformações ao nível físico,
intelectual, emocional e social. A adolescência é um processo
dinâmico de metamorfose que transforma o ser criança em um ser
adulto.”
Quando
começamos a crescer, nossos referenciais mudam. Buscamos nossa
própria identidade e nos espelhamos, ao invés de em nossos pais, em
nossos colegas que estão passando por esta mesma fase de mudanças e
descobertas. Esta afinidade gera uma aproximação que dá origem a
um grupo, uma “galera”.
O
vestuário, a música e a linguagem são tentativas dos adolescentes
de construírem sua identidade. Esses códigos não são
compreendidos por seus pais e líderes e se não houver um clima
propício para o diálogo, muitos conflitos poderão surgir no
relacionamento entre adolescentes e adultos.
Mais
uma vez, como escreveu o pr. Eliezer Morais “a oposição visa,
primeiramente e, sobretudo o meio familiar: o adolescente, para
provar a si mesmo a sua independência, defende sempre posições
contrárias às de seus pais e outros adultos. Ele também não
aceita ser orientado na escolha dos amigos, das leituras, diversões
e posições.”
É
necessário conhecer os códigos lingüísticos e estéticos dos
adolescentes para poder criar uma empatia e estabelecer canais de
comunicação efetivos para que eles não se sintam sozinhos e
incompreendidos, como na música do Gabriel, o Pensador, que fala
sobre os perigos do consumo de drogas e o que leva a muitos jovens à
embarcarem nesta canoa furada:
“ninguém
tá escutando o que eu quero dizer
ninguém
está dizendo o que eu quero escutar
ninguém
tá falando o que eu quero entender
ninguém
tá entendendo o que eu quero falar”
INTERESSE
–
Uma
família onde todos têm interesse em conversar uns com os outros é
uma família saudável. Como manter um bom nível de comunicação
familiar?
Em
primeiro lugar, é fundamental que haja respeito
no relacionamento. Respeito pelas características que diferenciam um
homem de uma mulher, um adulto de um adolescente ou de uma criança.
Se acharmos que pessoas diferentes de nós somente porque são nossos
familiares pensam e entendem as coisas igual a nós, o diálogo tende
ao fracasso.
Em
segundo lugar, é necessário que possua tempo,
isto é, que se reserve uma parte da rotina diária para o exercício
do diálogo. Durante às refeições, à noite. Desligar a TV ajuda –
e muito – a aumentar o diálogo. E os smartphones e tablets também!
Em
terceiro lugar, é importante que estimule o diálogo
e,
para isso, precisa saber ouvir, mesmo que não concorde ou não goste
do que está sendo dito. Uma pessoa que não é aberta a ouvir mesmo
um pai ou uma mãe, corre o risco de também não vir a ser ouvida,
pois relacionamentos sadios são baseados na reciprocidade.
PRECONCEITOS
–
Não se esqueça! Você já foi adolescente um dia!
Para
podermos compreender e aceitar o outro, é muito importante que
saibamos nos colocar no seu lugar. Se estivéssemos passando pela
mesma situação e tivéssemos a mesma história de vida que ele,
será que agiríamos diferente?
O
adolescente aos olhos de um adulto parece ser, muitas vezes,
irresponsável, inconsequente e incapaz de compreender a importância
de palavras como compromisso, horário e ter capacidade de pensar a
longo prazo. Acreditem, isto é normal! Você já se esqueceu como
foi quando você era adolescente?
Lembre-se,
o adolescente deixou de ser uma criança mas ainda não é um adulto,
é um período de transição. Quantas vezes não ouvimos “Esse
menino só tem tamanho!” Mas é verdade, muitas vezes, têm-se um
corpo quase de adulto mas a mente e os sentimentos ainda um tanto
infantis. Para piorar este ser “mutante” chamado adolescente
quando se comporta como criança logo ouve “Pára com isso! Onde já
se viu, um homão
desse tamanho agindo que nem criança!” ou se quer liberdades como
a chave do carro ou chegar mais tarde em casa: “Nem pensar! Você
está muito nova para isso!”
Portanto,
nada de menosprezar o comportamento dos adolescentes sob sua
responsabilidade pois, lembre-se, você também já foi um e se hoje
você ri dos probleminhas que tinha, lembre-se que naquela época
para você parecia um tremendo problemão e que podia, inclusive,
interferir com a sua vida espiritual!
CONCLUSÃO – Sua família é sua primeira, mais verdadeira e importante rede social. Invista tempo e energia nela. Curta os bons momentos, compartilhe sua experiência de vida em tempo real, ao vivo e à cores em um relacionamento concreto ao invés de um virtual. Fortaleça seus relacionamentos pois desta forma, nenhuma crise ou adversidade irá separá-los, como está escrito no livro sagrado:
"É melhor haver dois do que um, porque duas pessoas trabalhando juntas podem ganhar muito mais. Se uma delas cai, a outra a ajuda a se levantar. Mas, se alguém está sozinho e cai, fica em má situação porque não tem ninguém que o ajude a se levantar. Se faz frio, dois podem dormir juntos e se esquentar; mas um sozinho, como é que vai se esquentar? Dois homens podem resistir a um ataque que derrotaria um deles se estivesse sozinho. Uma corda de três cordões é difícil de arrebentar.
"É melhor haver dois do que um, porque duas pessoas trabalhando juntas podem ganhar muito mais. Se uma delas cai, a outra a ajuda a se levantar. Mas, se alguém está sozinho e cai, fica em má situação porque não tem ninguém que o ajude a se levantar. Se faz frio, dois podem dormir juntos e se esquentar; mas um sozinho, como é que vai se esquentar? Dois homens podem resistir a um ataque que derrotaria um deles se estivesse sozinho. Uma corda de três cordões é difícil de arrebentar.
O moço pobre mas sábio vale mais do que o rei velho e sem juízo que já não aceita conselhos." Eclesiastes 4.9-13
quarta-feira, 24 de junho de 2015
Não creio no evangelho
Não creio em um
evangelho que lança pedras contra quem pensa diferente.
Creio em um
Evangelho que afirma que “aquele que estiver sem pecado, que atire
a primeira pedra”.
Não creio em um
evangelho que se acovarde diante das injustiças deste mundo.
Creio em um
Evangelho que inspire seus seguidores a clamarem em alta voz “eu
tive um sonho”.
Não creio em um
evangelho que se amolde a uma sociedade corrupta e ache normal um
homem escravizar o seu semelhante.
Mas eu creio - oh, e
como eu creio! - em um Evangelho que transforma um traficante de
escravos no compositor do mais belo hino cristão de todos os tempos.
Não creio em um
evangelho que tenta subornar a Deus ou fazer dEle um serviçal para
os meus caprichos.
Creio em um
Evangelho que me ensina que Ele é o Senhor, e eu, seu humilde servo,
mesmo quando não entendo sua vontade.
Não creio em um
evangelho que separa homens em exércitos inimigos que se odeiam e se
matam.
Mas creio no
Evangelho que inspirou um homem a fundar a Cruz Vermelha e a salvar
milhões de vidas nas guerras e conflitos.
Não creio em um
evangelho focado na compra de jatinhos, mansões, carros de luxo ou
emissoras de TV.
Eu creio em um
Evangelho que constrói escolas, hospitais e vidas.
Não creio em um
evangelho arrogante e soberbo, que tenta me convencer que sou
superior ao meu semelhante porque “sou filho do rei”.
Eu creio em um
Evangelho que me revela que sou um miserável pecador, egoísta e
insensível, mas que apesar disto, Deus me amou de tal maneira que
enviou seu filho – o Rei dos reis – para morrer em meu lugar.
Não creio em um
evangelho que motive pessoas a cantarem que merecem conquistas e
vitórias materiais.
Eu creio em um
Evangelho que tem dado forças as pessoas a encararem a tortura e a
morte de frente, no Coliseu, na Inquisição e agora na Síria, na
Nigéria e no Iraque.
Sim, eu Creio em um
outro Evangelho, diferente do que tem sido cantado por aí. Creio que
tudo que sou ou tenho não é mérito meu, mas foi conquistado por
Jesus na cruz. E, por isso, me inspira a cantar outra canção,
aquele que o traficante de escravos arrependido um dia compôs:
“Maravilhosa
graça, como é doce o som
Que
salvou alguém como eu
Estava
perdido mas agora me encontrei
Estava
cego mas agora vejo”
É neste Evangelho
que eu creio. É por este Evangelho que eu vivo.
E acredite, não
estou sozinho.
Somos muitos.
Somos a Igreja.
Somos cristãos.P.S. Se você quiser conhecer a música e sua história, assista o vídeo.
Vale à pena:
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
Liberdade de Expressão - SQN
O
Charlie Hebdo é um pequeno jornal satírico semelhante ao finado
jornal brasileiro O Pasquim, de grande importância crítica na
época da ditadura militar que nosso país viveu. Bom, isto é o que
lemos e ouvimos na grande imprensa. Mas há diferenças. Grandes
diferenças.
A
França, diferente do Brasil, é um país com uma história milenar,
uma orgulhosa identidade nacional e um forte sentimento secularista
no Estado francês, uma tradição que tem origens na Revolução
Francesa. Mas o que isto teria a haver com o atentado? Muita coisa.
Como
disse, a França é um país orgulhoso de sua identidade, de sua
cultura. Isto é tão forte que chega a ser folclórico o costume dos
franceses não tratarem bem os turistas de outros países que lá vão
deixar seu rico dinheirinho mas não sabem se comunicar na língua de
Proust, Edit Piaf e Brigitte
Bardot. Se o povo francês não consegue ver com bons olhos o turista
estrangeiro que o visita, imagine o estrangeiro ou filho de
estrangeiro que vive lá e ousa manter as suas tradições?
Luc
Ferry, filósofo e ex-ministro da Educação da França, em
entrevista ao jornal O Globo, publicada no dia 25/01/2014, lá vivem
as maiores comunidades judias e muçulmanas da Europa: um milhão de
judeus e entre cinco e oito milhões de muçulmanos.
Estes
são grupos de forte tradição cultural e religiosa. Ou seja, não
se deixam assimilar pela cultura dominante de um país, o que
significa, manter e expor suas tradições, vestimentas, fé e até
mesmo língua publicamente. Portanto, são vistos com desconfiança e
até mesmo animosidade por uma razoável parcela da população. Sim,
há um forte componente xenófobo e até mesmo racista na sociedade
francesa. O crescimento de partidos de extrema-direita como o Frente
Nacional de Jean-Marie Le Pen é um exemplo disto. Mas por que há
tantos muçulmanos na França?
A
resposta está no colonialismo francês. A França colonizou – um
eufemismo para invadir, expropriar, sugar as riquezas locais e
levá-las para para Pais – diversos países africanos: Marrocos,
Argélia, Costa do Marfim, etc. Boa parte deles de população
muçulmana. Zidane, o grande jogador de futebol francês, é filho de
argelinos.
Alguns
destes países, como a Argélia, somente se tornaram independentes na
segunda metade do século XX! Mas o que a França não contava é que
a colonização gera um vínculo, um fluxo entre a metrópole e as
colônias e não só de matéria-prima para a indústria francesa.
Se a matriz leva as riquezas da colônia deixando-a na miséria, uma
parte da população da colônia vai até a matriz em busca desta
riqueza perdida na forma de melhores oportunidades. São os
imigrantes das antigas colônias francesas na África, quase todas
islâmicas. Mas não é isso que eles encontram.
Vivendo
em bairros pobres e sem acesso a boa educação e emprego, jovens de
origem árabe se sentem discriminados pelo resto da França que não
os entende e nem aceita que eles cultivem suas tradições seculares.
Em
meio a este barril de pólvora social, o jornal Charlie Hebdo publica
charges grosseiras e ofensivas à fé não apenas de muçulmanos no
distante Oriente
Médio, mas também de milhões de cidadãos franceses. Isto não
podia acabar bem.
Como
não podia deixar de ser, o chefe de redação do jornal francês
Charlie Hebdo, Gérard Biard, defendeu sua publicação das
caricaturas do profeta Maomé:
“Sempre
que fazemos um desenho de Maomé, de profetas ou de Deus, estamos
defendendo a liberdade religiosa”, disse Biard em entrevista à
emissora de TV norte-americana NBC
– a primeira concedida pelo
chefe de redação a uma emissora dos Estados Unidos desde o ataque
ao jornal, no último dia 7, no qual 12 pessoas foram mortas.
"Dizemos que Deus não deve ser uma figura
política ou pública, mas sim uma figura privada. Nós defendemos a
liberdade de religião”, afirmou Biard, ao defender que a religião
não deve servir como argumento político.”
Fonte: http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/chefe-de-redacao-do-charlie-hebdo-defende-charges-de-maome
Interessante.
Para ele, suas ofensas a religião dos outros é uma forma de
defender a liberdade religiosa! Fico imaginando como seria a sua
agressão à liberdade religiosa, então. Na prática, o Charlie
Hebdo não faz defesa de liberdade religiosa nenhuma. A chave para
entender a opinião de Gérard Biard está na frase "Dizemos que
Deus não deve ser uma figura política ou pública, mas sim uma
figura privada”. Ou seja, o jornal defende que o discurso religioso
seja privado, não público, isto é que fique preso, restrito às
quatro paredes das casas das pessoas, enquanto ele tem a liberdade de
publicar seu discurso anti-religioso. Liberdade de expressão? O pior
é que o governo francês concorda com ele.
Em
nome de uma pretensa liberdade de expressão, o Charlie Hebdo
praticou um verdadeiro ato de agressão contra a sensibilidade de
milhões de pessoas, atacando-as em suas crenças e valores. Mas esta
liberdade de expressão é falsa, ou melhor é de mão única. Em
2004 foi promulgada uma lei proibindo o uso de símbolos religiosos
em escolas públicas. Veja bem, a lei não está apenas proibindo a
presença de crucifixos nas paredes – o que é compreensível,
visto que o Estado é laico - mas sim que os próprios alunos não
entrem nas escolas se estiverem usando um kipá, um crucifixo ou um
shador. Na prática, a França proibiu milhões de pessoas de
exercerem a liberdade de expressarem a sua fé. Não estamos falando
de proselitismo religioso, mas sim de liberdade de expressão. Um
jornal é livre para ofender a fé de um jovem que não é livre para
ir à escola portando um crucifixo ou um véu islâmico.
Luc
Ferry acaba por deixar isso claro ao afirmar na entrevista que “a
França é a separação absoluta da religião e da política: a
laicidade é praticamente sagrada”. Chega a ser um
contrassenso. Na França o secularismo é
sagrado. O sagrado não é.
Aliás,
reparou que em todas as matérias publicadas na imprensa brasileira,
as charges nunca aparecem? Suponho que seja porque as charges são
realmente tão ofensivas,que dificilmente a maioria da população
brasileira concordaria com o uso da liberdade de expressão para
isso. Especialmente se vissem as charges contra a fé cristã. Se tem
estômago, veja alguns exemplos:
Se isto é liberdade de expressão, o Charlie Hebdo expressou seu preconceito religioso, sua discriminação e sua intolerância laica contra a fé milhões de pessoas, muitas delas abandonadas pelo Estado francês. Veja que os criticados nestas charges não são políticos ou os líderes dos grupos terroristas. Não há nesta seleção charges de Osama Bin Laden (embora eles tenham feito, sim), mas sim ataques às crenças de milhões de pessoas, tanto cristãs como muçulmanas. Na prática, o Charlie Hebdo praticou diversos atos de violência intelectual, mas nem todos os agredidos são como os cristãos que dão a outra face.
O
mundo ocidental ficou chocado com a reação violenta e injustificada
contra o jornal. E se fosse no Brasil? E se fosse um jornal
corintiano com charges neste estilo retratando palmeirenses? Alguém
acha que o resultado seria diferente?
Alguém defenderia no Brasil a liberdade
do jornal corintiano de expressar seu preconceito?
Então,
por que contra a fé de milhões de pessoas pode?
Para mais informações sobre a questão, sugiro os links abaixo:
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
O Moisés moderno de Ridley Scott
Vi ontem o filme
Êxodo: Deuses e Reis, do consagrado diretor Ridley Scott (Blade
Runner, Alien, Gladiador, etc.) e apesar da exuberância visual, fica
um certo desapontamento no ar.
Scott tem sido um
diretor um tanto errático: seus filmes sempre nos enchem os olhos,
mas nem sempre a história é bem contada. Em Alien tudo deu certo.
Em Prometheus, sua continuação, ficou o gostinho de que ficou
faltando algo. Infelizmente, Êxodo está mais para Prometheus do que
para Alien. E isto tem tudo a haver com as alterações que o diretor
fez tanto na história bíblica quanto na história egípcia. Se você ainda não viu o filme e quer ver, leia o resto do texto por sua conta e risco: tem muitos spoilers neste artigo daqui para frente.
O filme começa de
forma convencional, mostrando a data de 1300 a.C. (a data atualmente
mais aceita para o Êxodo) narrando a escravidão dos hebreus no
Egito por 400 anos. Até aí tudo bem. Mas, de repente, aparece uma
cena de uma pirâmide sendo construída. Pirâmide? Em 1300 a.C.?
Naquela época não se construíam mais pirâmides, mas sim mastabas
– palácios funerários escavados na rocha, no famoso Vale dos
Reis.
Daí em diante o
filme segue a linha clássica da ficção hollywoodiana colocando
Moisés e Ramsés como dois amigos que se amam com irmãos, sendo
Moisés o predileto do Faraó. Você já viu isso antes, até mesmo
em desenhos animados. Lembra-se do Príncipe do Egito? E é aí que a
fraqueza do filme se acentua.
No filme, o velho
faraó Horemheb é enterrado em uma tumba monumental cuja entrada é
ladeada por estátuas de pedra gigantes. Eu conheço essa tumba... é o templo de Abu Simbel, construída por Ramsés II, quando ele era
faraó. Ou seja, ela não existia quando Horemheb morreu, portanto,
ele não foi sepultado lá. Então porque o filme tem esta cena
historicamente falsa? Porque o filme quis retratar Horemheb como um
faraó forte, poderoso e sábio como contraste a Ramsés II,
retratado como fraco, inseguro e traumatizado pela falta de
demonstração de amor paterno. O problema é que Ramsés não era
assim. Ele foi o maior e mais poderoso faraó que o Egito já teve,
construindo monumentos magníficos, vencendo os hititas na lendária
batalha de Kadesh. Ramsés II era extramente vaidoso e seguro de si,
bem ao contrário da representação feita no filme.
Se a figura de
Ramsés foi bastante modificada em relação ao que a história do
Egito registra, a de Moisés mantém pouca ou nenhuma relação com o
texto bíblico. O Moisés do filme é o clássico herói moderno: ético, porém cético, que parte por força das circunstâncias em
sua jornada solitária, lutando contra tudo e contra todos, até
mesmo contra Deus, e prevalecendo no final. Para satisfazer o gosto
popular, Moisés não é um velho: é jovem, não usa um cajado –
ele o deixa em Midiã com seu filho - mas sim uma espada egípcia! O
Moisés do filme não é um velho homem de fé, mas um um jovem
guerreiro confiante em suas capacidades.
Para que Moisés se
encaixe neste figurino trechos inteiro do relato de Êxodo tiveram de
ser desconsiderados:
1) na Bíblia Moisés
não é um herói idealizado, mas possui falhas de caráter: mata um
egípcio em uma briga e enterra o cadáver para não ser descoberto.
Quando descobrem o crime, foge para Midiã. No filme, Moisés mata um
soldado quando este descobre que ele é hebreu e volta normalmente
para o palácio. Ele não foge, protege Miriã e é expulso para o
deserto por ordem do faraó – bem mais nobre, porém bem mais
artificial e fantasioso.
2) no encontro com
Deus na sarça ardente, no livro do Êxodo Deus se revela como o Deus
de seus antepassados e lhe dá uma ordem detalhada do que ele deve
fazer para libertar seu povo do Egito. Inclusive lhe dá provas de
que estará com ele fazendo sinais com seu cajado. Já no filme, Deus
diz muito pouco, quase nada, de quem é e do quer que Moisés faça
para libertar seu povo. Pior: Moisés diz que é um pastor e Deus diz
que não precisa de um pastor, mas sim de um general. Como é?
Qualquer pessoa que tenha estudado minimamente a Bíblia sabe que o
padrão divino de liderança é o pastor de ovelhas – Moisés era
pastor, Davi era pastor, Jesus se apresentava como “o Bom Pastor”.
No Êxodo vemos Moisés pastoreando ovelhas no deserto durante 40
anos como uma espécie de preparação que Deus lhe dá para poder
guiar seu enorme povo pelo deserto e no filme, vemos Deus dizendo que
não quer um pastor de ovelhas?
3) Na Bíblia, o
velho Moisés reluta em aceitar a sua missão a ponto de irritar
Deus. No filme, aceita imediatamente. No texto bíblico, ele volta para o
Egito com esposa e filhos. No filme, ele volta sozinho. Na Bíblia,
ele faz sinais com seu cajado. No filme ele faz atentados com um
grupo guerrilheiro. Na Bíblia Moisés nunca viu o rosto de Deus,
embora conversasse com ele face a face. No filme, Deus sempre aparece
a Moisés como uma criança. Uma criança aparentemente mimada e sem
sentimentos mais profundos pelo povo hebreu.
Por que tantas
mudanças? Qual o seu objetivo ao descaracterizar assim não apenas a
Bíblia como a história egípcia? Diretores não resistem a tentação
de, ao filmarem histórias já contadas anteriormente, de darem o seu
toque pessoal ou, como eles dizem, a sua “visão” da história,
das metáforas e alegorias que elas encerrariam. Muitas vezes o
resultado é não apenas inferior como também uma descaracterização
da obra original. E qual teria sido a visão de Ridley Scott?
Acredito que o filme seja o retrato de nossa época. O homem moderno
sonha em ser como o Moisés do filme: senhor de si, guerreiro, forte,
autossuficiente, com seu próprio senso de justiça. Não há espaço
para um Deus Soberano sobre tudo e sobre todos, inclusive sobre a sua
vida mortal. E quando se defronta com esse Deus o vê como uma
criança mimada, uma poderosa criança mimada e caprichosa. Um Deus
com “d” minúsculo, diante do qual se pode irar, retrucar,
discutir. Um deus que 'um reflexo de si mesmo.
Já o Deus que o
livro do Êxodo descreveu no encontro com Moisés é diferente, bem
diferente. É um ser imaterial, sem forma, que não pode ser contido
ou ignorado. Que tem plena consciência de quem é: o Ser Perfeito e
Imutável, descrito no nome que se apresentou a Moisés: Ehyeh
Asher Ehyeh: Eu Sou o Que Sou (em hebraico: אֶהְיֶה
אֲשֶׁר אֶהְיֶה). O Ser infinitamente puro que disse a Moisés
quando este se aproximou no monte Horebe: “tira as sandálias dos
teus pés porque o lugar em que te encontras é uma terra santa.”
O Moisés do Êxodo
compreendeu a sua pequenez diante do Ser que o comissionava e diante
da missão para o qual era comissionado. Por isso foi escolhido. Ele
era apenas o instrumento, Deus era o ator por trás da história que
libertaria seu povo. O ceticismo e a vaidade de Ridley Scott não lhe
deixaram ver a riqueza e a veracidade da narrativa do Êxodo e o
forçaram a recontar a história de uma forma que fosse mais
palatável para uma plateia igualmente cética e vaidosa. Por isso
ele fracassou. Ao recontar a história de Moisés como um herói
idealizado, perdeu-se a dimensão humana do personagem. Falta emoção ao filme. Irônico: sua
vã tentativa de fazer uma descrição “verossível” do Êxodo,
resultou em um uso indiscriminado de mistificações, deturpações e omissões, as quais acabaram por mostrar como o velho texto bíblico, ao
descrever os personagens, suas falas e ações, é muito mais lógico,
isento e realista do que qualquer filme ou obra de ficção
posterior. Por quê? Porque descreve pessoas e fatos reais e não personagens idealizados. Obrigado,
Ridley!
Uma dica Ridley: ao
invés de ter contratado o Christian “Batman” Bale para o papel,
não teria sido melhor o Ian “Gandalf” McKellen? Não me leve a
mal, Christian Bale é um excelente ator. Mas imagine a cena: ao
invés do Moisés a cavalo e de espada na mão cavalgando sobre o
leito seco do Mar Vermelho, poderia estar pé de cajado na mão à la
Galdalf gritando para o exército do faraó: “You shall not pass!”
Que tal, hein? Não? Bom, deixa pra lá. Foi só uma sugestão.
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