sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Reforma, Pentecostalismo e Star Trek



Quem me conhece sabe que sou meio nerd. Tá bom, bastante nerd. E um bom nerd que se preze sabe a diferença entre Star Wars e Star Trek.
Star Trek (antigamente conhecida no Brasil como Jornada nas Estrelas) era uma série de TV de ficção científica criada na década de 60 por Gene Rodenberry no auge da Guerra Fria e que contava as aventuras do capitão Kirk e sua tripulação multiétnica da nave estelar Enterprise “audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve”. A série original durou apenas 3 anos mas teve vários reprises, deu origem a diversas séries derivadas e a inúmeros filmes no cinema.
Star Wars (antes conhecida no Brasil como Guerra nas Estrelas), criada por George Lucas, é uma série de filmes para o cinema iniciada no final dos anos 70. Embora pareça ficção científica, na verdade é uma fantasia espacial que conta a saga da família Skywalker a partir de Anakin (que viria a se tornar no icônico vilão Dart Vader) e depois por seus filhos Luke e Leia. Já está no sétimo filme e uma legião de fãs aguarda ansiosamente o oitavo. Confundir uma série com a outra é quase uma ofensa pessoal para seus ardorosos fãs.
Talvez você não saiba, mas sou um trekker, isto é, um fã de Jornada nas Estrelas. Estou escrevendo este texto com minha miniatura da Enterprise em frente ao monitor e minha caneca de café com o rosto do capitão Kirk, senhor Spock e o dr. McKoy ao lado.
Mas o que isto tem a haver com Reforma e Pentecostalismo?
Neste ano, Star Trek comemora 50 anos do lançamento da série e muitos afirmam que o sucesso da série clássica se devia a forte química que havia entre os três personagens principais – aqueles da minha caneca. Mas mais tarde eu volto a este assunto.
Ano que vem serão comemorados os 500 anos da Reforma Protestante, cujo evento-marco foi a fixação por Martinho Lutero de 95 teses na porta da igreja de Wittenberg na Alemanha em 1517, mudando para sempre a história do cristianismo ocidental.
O protestantismo rompeu o monopólio da interpretação da Bíblia, defendeu a separação entre a Igreja e o Estado, e quebrou paradigmas ao retirar do sacerdote a mediação entre os homens e Deus proclamando o sacerdócio universal dos crentes. Seu fervor evangelístico e sua produção teológica levaram a se espalhar rapidamente não apenas na Europa mas em todos os continentes.
Porém, com o advento do Iluminismo e a hegemonia do pensamento racionalista, pouco a pouco, a teologia protestante foi se afastando de seu fervor inicial e de sua devoção à Bíblia como texto sagrado, até desaguar no século XIX em uma aversão ao sobrenatural e ao miraculoso que, muito contribuiu para o esfriamento espiritual de toda a Europa.
Além disto, neste ano de 2016 o Brasil sediará a 24a. Conferência Mundial Pentecostal, em São Paulo.
Embora já centenário, o pentecostalismo parece ser a antítese do protestantismo do início do século XX: espontâneo, popular, emocional mas, acima de tudo, fervorosamente aberto ao sopro do Espírito Santo. Hoje, não há dúvida de que o cristianismo que tem crescido no mundo, especialmente nos países pobres e em desenvolvimento, é o pentecostal. Mas nele também há senões.
Tanto nos EUA quanto no Brasil, o movimento pentecostal nasceu nas comunidades mais humildes, sendo rechaçado e discriminado pelas elites sociais e religiosas de seu tempo. Não é de se estranhar que seus pioneiros, especialmente no Brasil, tenham desenvolvido um forte anti-intelectualismo e, com base no que viam acontecer nas igrejas protestantes históricas, medo de que o estudo teológico viesse a enfraquecer a sua fé e a sua comunhão com Deus. Mas esta postura teve um alto preço. A falta de um arcabouço teológico mais profundo levou o pentecostalismo a se tornar um solo fértil para que surgissem algumas igrejas de forte radicalismo nos costumes e também para um misticismo não bíblico e até mesmo sincrético.
De um lado, uma igreja extremamente racional. De outro, uma igreja altamente emocional. Ambas mutuamente se estranhando, liturgicamente, teologicamente e culturalmente. E isto me lembra Star Trek.
Como citei no início do meu texto, a famosa série sessentista era composta por uma carismática trinca de personagens: o capitão Kirk, o oficial de ciências Spock e o médico da nave, dr. McKoy.
Um dos mais famosos personagens da cultura pop de todos os tempos, Spock era um extraterrestre do planeta Vulcano. Filho de pai vulcano e mãe terráquea, ele foi criado segundo a cultura vulcana na qual os sentimentos devem ser todos eliminados pois somente pela lógica se poderia suplantar a selvageria. Por isso, o personagem magistralmente interpretado pelo recentemente falecido Leonard Nimoy (quase) nunca sorria. O “quase” se deve ao fato de que, de fato, Spock tinha sentimentos, mas devido a sua cultura vulcana ele os escondia de todos. Sua frase mais famosa no seriado era saudação vulcana “vida longa e próspera”.
Por outro lado, o doutor McCoy era seu oposto: passional, irritadiço, falava o que lhe vinha à cabeça e com frequência se irritava com a frieza de Spock diante das mais desesperadoras situações. Eram momentos deliciosos na série clássica as birras e provocações mútuas entre os dois personagens.
Os dois eram os melhores amigos do capitão da USS Enterprise, James T. Kirk, o qual parecia ser a junção perfeita das melhores qualidades de ambos, alternando nos momentos certos a frieza necessária para tomar decisões com o envolvimento emocional com sua tripulação e demais pessoas que passaram pela série, tão importante para que se queira realmente ajudá-los em seus problemas. Não raro, Spock e McCoy se surpreendiam com a forma como o capitão Kirk conseguia salvar o dia no final de cada episódio.
Não é muito difícil associar o jeito vulcano de ser do oficial de ciências da Enterprise com o estilo formal, intelectualizado e um tanto frio das igrejas protestantes clássicas. De igual modo, é visível a passionalidade do dr. McCoy em muitas atitudes das igrejas pentecostais.
Creio que a igreja do século XXI tem de ser menos Spock e McCoy e ser mais Kirk, ou seja, ao invés de se criticarem mutuamente, deveriam aprender com a plenitude de Cristo a se tornarem mais equilibradas e centradas e, ao mesmo tempo, intelectualmente preparadas e calorosamente amorosas.

Afinal, estamos todos embarcados em um mesmo empreendimento (em inglês, enterprise) chamado Igreja, e não vai ser brigando uns com os outros que auxiliaremos nosso Eterno Capitão a levar a tripulação desta nave terrestre aos céus, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve.






















segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Comunicação na família


- O que há querida? Você está tão calada?
- Eu? nada.
- Como nada? Estou vendo o seu rosto sério. O que foi?
- Nada.
- Pela sua cara, aconteceu tudo. O que foi?
- Vai dizer que você não sabe?
- Mas como vou saber se você disse?
- E precisa?

Quem nunca passou ou presenciou um diálogo assim? Embora a comunicação seja algo fundamental para a convivência e o relacionamento humanos, nem sempre ela é fácil, mesmo dentro do lar. Afinal, homens e mulheres, adultos e crianças, tem idades, linhas de raciocínio, criação, culturas e idades diferentes e, por isso, formas diferentes de entenderem e se comunicarem.

Vejamos alguns elementos da boa comunicação:

LINGUAGEM – A arte de se comunicar
Quem
diz o quê
Em que meio
Como
Para quem
Comunicador
mensagem
Visual (Escrita, Pintada, Desenhada ou Gesticulada
Linguagem
Receptor
Áudio (Falada ou Cantada)
Áudiovisual


Para que haja comunicação, é necessário que comunicador e receptor possuam uma mesma linguagem, isto é, que se utilizem de um grupo de símbolos estruturados de maneira a ter um mesmo significado para ambos.
As gírias são um código diretamente ligado ao grupo social ao qual o indivíduo está integrado. Todo grupo fechado possui sua gíria. Ex.: Contrução Civil, militares, crentes, etc.
Um grupo fértil para gírias são os adolescentes. Enquanto nos demais grupos as gírias se mantém inalteradas durante um muito tempo, as gírias dos adolescentes mudam constantemente, dificultando o seu acompanhamento por observadores externos ao grupo, como os pais, por exemplo.

CULTURA – O chão sobre o qual está alicerçada a linguagem
Para se comunicar efetivamente com seus filhos, é necessário se conhecer, e bem, o caldo cultural no qual estão imersos. O que vêem, ouvem, leem. Quais são seus referenciais de vida? Que personalidades admiram ou desprezam? Quais seus sonhos e aspirações? Sem conhecer esses elementos um diálogo aberto se torna muito difícil.

ADOLESCÊNCIA – Segundo o pr. Eliezer Morais a adolescência é “uma etapa onde ocorrem as mais importantes transformações ao nível físico, intelectual, emocional e social. A adolescência é um processo dinâmico de metamorfose que transforma o ser criança em um ser adulto.”
Quando começamos a crescer, nossos referenciais mudam. Buscamos nossa própria identidade e nos espelhamos, ao invés de em nossos pais, em nossos colegas que estão passando por esta mesma fase de mudanças e descobertas. Esta afinidade gera uma aproximação que dá origem a um grupo, uma “galera”.
O vestuário, a música e a linguagem são tentativas dos adolescentes de construírem sua identidade. Esses códigos não são compreendidos por seus pais e líderes e se não houver um clima propício para o diálogo, muitos conflitos poderão surgir no relacionamento entre adolescentes e adultos.
Mais uma vez, como escreveu o pr. Eliezer Morais “a oposição visa, primeiramente e, sobretudo o meio familiar: o adolescente, para provar a si mesmo a sua independência, defende sempre posições contrárias às de seus pais e outros adultos. Ele também não aceita ser orientado na escolha dos amigos, das leituras, diversões e posições.”
É necessário conhecer os códigos lingüísticos e estéticos dos adolescentes para poder criar uma empatia e estabelecer canais de comunicação efetivos para que eles não se sintam sozinhos e incompreendidos, como na música do Gabriel, o Pensador, que fala sobre os perigos do consumo de drogas e o que leva a muitos jovens à embarcarem nesta canoa furada:

ninguém tá escutando o que eu quero dizer
ninguém está dizendo o que eu quero escutar
ninguém tá falando o que eu quero entender
ninguém tá entendendo o que eu quero falar”

INTERESSE Uma família onde todos têm interesse em conversar uns com os outros é uma família saudável. Como manter um bom nível de comunicação familiar?
Em primeiro lugar, é fundamental que haja respeito no relacionamento. Respeito pelas características que diferenciam um homem de uma mulher, um adulto de um adolescente ou de uma criança. Se acharmos que pessoas diferentes de nós somente porque são nossos familiares pensam e entendem as coisas igual a nós, o diálogo tende ao fracasso.
Em segundo lugar, é necessário que possua tempo, isto é, que se reserve uma parte da rotina diária para o exercício do diálogo. Durante às refeições, à noite. Desligar a TV ajuda – e muito – a aumentar o diálogo. E os smartphones e tablets também!
Em terceiro lugar, é importante que estimule o diálogo e, para isso, precisa saber ouvir, mesmo que não concorde ou não goste do que está sendo dito. Uma pessoa que não é aberta a ouvir mesmo um pai ou uma mãe, corre o risco de também não vir a ser ouvida, pois relacionamentos sadios são baseados na reciprocidade.

PRECONCEITOS – Não se esqueça! Você já foi adolescente um dia!
Para podermos compreender e aceitar o outro, é muito importante que saibamos nos colocar no seu lugar. Se estivéssemos passando pela mesma situação e tivéssemos a mesma história de vida que ele, será que agiríamos diferente?
O adolescente aos olhos de um adulto parece ser, muitas vezes, irresponsável, inconsequente e incapaz de compreender a importância de palavras como compromisso, horário e ter capacidade de pensar a longo prazo. Acreditem, isto é normal! Você já se esqueceu como foi quando você era adolescente?
Lembre-se, o adolescente deixou de ser uma criança mas ainda não é um adulto, é um período de transição. Quantas vezes não ouvimos “Esse menino só tem tamanho!” Mas é verdade, muitas vezes, têm-se um corpo quase de adulto mas a mente e os sentimentos ainda um tanto infantis. Para piorar este ser “mutante” chamado adolescente quando se comporta como criança logo ouve “Pára com isso! Onde já se viu, um homão desse tamanho agindo que nem criança!” ou se quer liberdades como a chave do carro ou chegar mais tarde em casa: “Nem pensar! Você está muito nova para isso!”

Portanto, nada de menosprezar o comportamento dos adolescentes sob sua responsabilidade pois, lembre-se, você também já foi um e se hoje você ri dos probleminhas que tinha, lembre-se que naquela época para você parecia um tremendo problemão e que podia, inclusive, interferir com a sua vida espiritual!

CONCLUSÃO – Sua família é sua primeira, mais verdadeira e importante rede social. Invista tempo e energia nela. Curta os bons momentos, compartilhe sua experiência de vida em tempo real, ao vivo e à cores em um relacionamento concreto ao invés de um virtual. Fortaleça seus relacionamentos pois desta forma, nenhuma crise ou adversidade irá separá-los, como está escrito no livro sagrado:

"É melhor haver dois do que um, porque duas pessoas trabalhando juntas podem ganhar muito mais. Se uma delas cai, a outra a ajuda a se levantar. Mas, se alguém está sozinho e cai, fica em má situação porque não tem ninguém que o ajude a se levantar. Se faz frio, dois podem dormir juntos e se esquentar; mas um sozinho, como é que vai se esquentar? Dois homens podem resistir a um ataque que derrotaria um deles se estivesse sozinho. Uma corda de três cordões é difícil de arrebentar.
O moço pobre mas sábio vale mais do que o rei velho e sem juízo que já não aceita conselhos." Eclesiastes 4.9-13

   

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Não creio no evangelho


Não creio em um evangelho que lança pedras contra quem pensa diferente.
Creio em um Evangelho que afirma que “aquele que estiver sem pecado, que atire a primeira pedra”.

Não creio em um evangelho que se acovarde diante das injustiças deste mundo.
Creio em um Evangelho que inspire seus seguidores a clamarem em alta voz “eu tive um sonho”.

Não creio em um evangelho que se amolde a uma sociedade corrupta e ache normal um homem escravizar o seu semelhante.
Mas eu creio - oh, e como eu creio! - em um Evangelho que transforma um traficante de escravos no compositor do mais belo hino cristão de todos os tempos.

Não creio em um evangelho que tenta subornar a Deus ou fazer dEle um serviçal para os meus caprichos.
Creio em um Evangelho que me ensina que Ele é o Senhor, e eu, seu humilde servo, mesmo quando não entendo sua vontade.

Não creio em um evangelho que separa homens em exércitos inimigos que se odeiam e se matam.
Mas creio no Evangelho que inspirou um homem a fundar a Cruz Vermelha e a salvar milhões de vidas nas guerras e conflitos.

Não creio em um evangelho focado na compra de jatinhos, mansões, carros de luxo ou emissoras de TV.
Eu creio em um Evangelho que constrói escolas, hospitais e vidas.

Não creio em um evangelho arrogante e soberbo, que tenta me convencer que sou superior ao meu semelhante porque “sou filho do rei”.
Eu creio em um Evangelho que me revela que sou um miserável pecador, egoísta e insensível, mas que apesar disto, Deus me amou de tal maneira que enviou seu filho – o Rei dos reis – para morrer em meu lugar.

Não creio em um evangelho que motive pessoas a cantarem que merecem conquistas e vitórias materiais.
Eu creio em um Evangelho que tem dado forças as pessoas a encararem a tortura e a morte de frente, no Coliseu, na Inquisição e agora na Síria, na Nigéria e no Iraque.

Sim, eu Creio em um outro Evangelho, diferente do que tem sido cantado por aí. Creio que tudo que sou ou tenho não é mérito meu, mas foi conquistado por Jesus na cruz. E, por isso, me inspira a cantar outra canção, aquele que o traficante de escravos arrependido um dia compôs:

Maravilhosa graça, como é doce o som
Que salvou alguém como eu
Estava perdido mas agora me encontrei
Estava cego mas agora vejo”

É neste Evangelho que eu creio. É por este Evangelho que eu vivo.
E acredite, não estou sozinho.
Somos muitos.
Somos a Igreja.
Somos cristãos.

P.S. Se você quiser conhecer a música e sua história, assista o vídeo. 
Vale à pena:


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Liberdade de Expressão - SQN


 

O mundo viu estarrecido o ataque de uma célula terrorista à redação do jornal francês Charlie Hebdo. Diversas pessoas mortas, entre elas alguns de seus principais cartunistas. Por quê tanta violência gratuita?


O Charlie Hebdo é um pequeno jornal satírico semelhante ao finado jornal brasileiro O Pasquim, de grande importância crítica na época da ditadura militar que nosso país viveu. Bom, isto é o que lemos e ouvimos na grande imprensa. Mas há diferenças. Grandes diferenças.

A França, diferente do Brasil, é um país com uma história milenar, uma orgulhosa identidade nacional e um forte sentimento secularista no Estado francês, uma tradição que tem origens na Revolução Francesa. Mas o que isto teria a haver com o atentado? Muita coisa.

Como disse, a França é um país orgulhoso de sua identidade, de sua cultura. Isto é tão forte que chega a ser folclórico o costume dos franceses não tratarem bem os turistas de outros países que lá vão deixar seu rico dinheirinho mas não sabem se comunicar na língua de Proust, Edit Piaf e Brigitte Bardot. Se o povo francês não consegue ver com bons olhos o turista estrangeiro que o visita, imagine o estrangeiro ou filho de estrangeiro que vive lá e ousa manter as suas tradições?

Luc Ferry, filósofo e ex-ministro da Educação da França, em entrevista ao jornal O Globo, publicada no dia 25/01/2014, lá vivem as maiores comunidades judias e muçulmanas da Europa: um milhão de judeus e entre cinco e oito milhões de muçulmanos.

Estes são grupos de forte tradição cultural e religiosa. Ou seja, não se deixam assimilar pela cultura dominante de um país, o que significa, manter e expor suas tradições, vestimentas, fé e até mesmo língua publicamente. Portanto, são vistos com desconfiança e até mesmo animosidade por uma razoável parcela da população. Sim, há um forte componente xenófobo e até mesmo racista na sociedade francesa. O crescimento de partidos de extrema-direita como o Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen é um exemplo disto. Mas por que há tantos muçulmanos na França?

A resposta está no colonialismo francês. A França colonizou – um eufemismo para invadir, expropriar, sugar as riquezas locais e levá-las para para Pais – diversos países africanos: Marrocos, Argélia, Costa do Marfim, etc. Boa parte deles de população muçulmana. Zidane, o grande jogador de futebol francês, é filho de argelinos.

Alguns destes países, como a Argélia, somente se tornaram independentes na segunda metade do século XX! Mas o que a França não contava é que a colonização gera um vínculo, um fluxo entre a metrópole e as colônias e não só de matéria-prima para a indústria francesa. Se a matriz leva as riquezas da colônia deixando-a na miséria, uma parte da população da colônia vai até a matriz em busca desta riqueza perdida na forma de melhores oportunidades. São os imigrantes das antigas colônias francesas na África, quase todas islâmicas. Mas não é isso que eles encontram.

Vivendo em bairros pobres e sem acesso a boa educação e emprego, jovens de origem árabe se sentem discriminados pelo resto da França que não os entende e nem aceita que eles cultivem suas tradições seculares.

Em meio a este barril de pólvora social, o jornal Charlie Hebdo publica charges grosseiras e ofensivas à fé não apenas de muçulmanos no distante Oriente Médio, mas também de milhões de cidadãos franceses. Isto não podia acabar bem.

Como não podia deixar de ser, o chefe de redação do jornal francês Charlie Hebdo, Gérard Biard, defendeu sua publicação das caricaturas do profeta Maomé:

“Sempre que fazemos um desenho de Maomé, de profetas ou de Deus, estamos defendendo a liberdade religiosa”, disse Biard em entrevista à emissora de TV norte-americana NBC – a primeira concedida pelo chefe de redação a uma emissora dos Estados Unidos desde o ataque ao jornal, no último dia 7, no qual 12 pessoas foram mortas.
"Dizemos que Deus não deve ser uma figura política ou pública, mas sim uma figura privada. Nós defendemos a liberdade de religião”, afirmou Biard, ao defender que a religião não deve servir como argumento político.”

Interessante. Para ele, suas ofensas a religião dos outros é uma forma de defender a liberdade religiosa! Fico imaginando como seria a sua agressão à liberdade religiosa, então. Na prática, o Charlie Hebdo não faz defesa de liberdade religiosa nenhuma. A chave para entender a opinião de Gérard Biard está na frase "Dizemos que Deus não deve ser uma figura política ou pública, mas sim uma figura privada”. Ou seja, o jornal defende que o discurso religioso seja privado, não público, isto é que fique preso, restrito às quatro paredes das casas das pessoas, enquanto ele tem a liberdade de publicar seu discurso anti-religioso. Liberdade de expressão? O pior é que o governo francês concorda com ele.

Em nome de uma pretensa liberdade de expressão, o Charlie Hebdo praticou um verdadeiro ato de agressão contra a sensibilidade de milhões de pessoas, atacando-as em suas crenças e valores. Mas esta liberdade de expressão é falsa, ou melhor é de mão única. Em 2004 foi promulgada uma lei proibindo o uso de símbolos religiosos em escolas públicas. Veja bem, a lei não está apenas proibindo a presença de crucifixos nas paredes – o que é compreensível, visto que o Estado é laico - mas sim que os próprios alunos não entrem nas escolas se estiverem usando um kipá, um crucifixo ou um shador. Na prática, a França proibiu milhões de pessoas de exercerem a liberdade de expressarem a sua fé. Não estamos falando de proselitismo religioso, mas sim de liberdade de expressão. Um jornal é livre para ofender a fé de um jovem que não é livre para ir à escola portando um crucifixo ou um véu islâmico.

Luc Ferry acaba por deixar isso claro ao afirmar na entrevista que “a França é a separação absoluta da religião e da política: a laicidade é praticamente sagrada”. Chega a ser um contrassenso. Na França o secularismo é sagrado. O sagrado não é.

Aliás, reparou que em todas as matérias publicadas na imprensa brasileira, as charges nunca aparecem? Suponho que seja porque as charges são realmente tão ofensivas,que dificilmente a maioria da população brasileira concordaria com o uso da liberdade de expressão para isso. Especialmente se vissem as charges contra a fé cristã. Se tem estômago, veja alguns exemplos:














Se isto é liberdade de expressão, o Charlie Hebdo expressou seu preconceito religioso, sua discriminação e sua intolerância laica contra a fé milhões de pessoas, muitas delas abandonadas pelo Estado francês. Veja que os criticados nestas charges não são políticos ou os líderes dos grupos terroristas. Não há nesta seleção charges de Osama Bin Laden (embora eles tenham feito, sim), mas sim ataques às crenças de milhões de pessoas, tanto cristãs como muçulmanas. Na prática, o Charlie Hebdo praticou diversos atos de violência intelectual, mas nem todos os agredidos são como os cristãos que dão a outra face.

O mundo ocidental ficou chocado com a reação violenta e injustificada contra o jornal. E se fosse no Brasil? E se fosse um jornal corintiano com charges neste estilo retratando palmeirenses? Alguém acha que o resultado seria diferente? Alguém defenderia no Brasil a liberdade do jornal corintiano de expressar seu preconceito?
Então, por que contra a fé de milhões de pessoas pode?


Para mais informações sobre a questão, sugiro os links abaixo:







terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O Moisés moderno de Ridley Scott


Vi ontem o filme Êxodo: Deuses e Reis, do consagrado diretor Ridley Scott (Blade Runner, Alien, Gladiador, etc.) e apesar da exuberância visual, fica um certo desapontamento no ar.

Scott tem sido um diretor um tanto errático: seus filmes sempre nos enchem os olhos, mas nem sempre a história é bem contada. Em Alien tudo deu certo. Em Prometheus, sua continuação, ficou o gostinho de que ficou faltando algo. Infelizmente, Êxodo está mais para Prometheus do que para Alien. E isto tem tudo a haver com as alterações que o diretor fez tanto na história bíblica quanto na história egípcia. Se você ainda não viu o filme e quer ver, leia o resto do texto por sua conta e risco: tem muitos spoilers neste artigo daqui para frente.

O filme começa de forma convencional, mostrando a data de 1300 a.C. (a data atualmente mais aceita para o Êxodo) narrando a escravidão dos hebreus no Egito por 400 anos. Até aí tudo bem. Mas, de repente, aparece uma cena de uma pirâmide sendo construída. Pirâmide? Em 1300 a.C.? Naquela época não se construíam mais pirâmides, mas sim mastabas – palácios funerários escavados na rocha, no famoso Vale dos Reis.

Daí em diante o filme segue a linha clássica da ficção hollywoodiana colocando Moisés e Ramsés como dois amigos que se amam com irmãos, sendo Moisés o predileto do Faraó. Você já viu isso antes, até mesmo em desenhos animados. Lembra-se do Príncipe do Egito? E é aí que a fraqueza do filme se acentua.

No filme, o velho faraó Horemheb é enterrado em uma tumba monumental cuja entrada é ladeada por estátuas de pedra gigantes. Eu conheço essa tumba... é o templo de Abu Simbel, construída por Ramsés II, quando ele era faraó. Ou seja, ela não existia quando Horemheb morreu, portanto, ele não foi sepultado lá. Então porque o filme tem esta cena historicamente falsa? Porque o filme quis retratar Horemheb como um faraó forte, poderoso e sábio como contraste a Ramsés II, retratado como fraco, inseguro e traumatizado pela falta de demonstração de amor paterno. O problema é que Ramsés não era assim. Ele foi o maior e mais poderoso faraó que o Egito já teve, construindo monumentos magníficos, vencendo os hititas na lendária batalha de Kadesh. Ramsés II era extramente vaidoso e seguro de si, bem ao contrário da representação feita no filme.

Se a figura de Ramsés foi bastante modificada em relação ao que a história do Egito registra, a de Moisés mantém pouca ou nenhuma relação com o texto bíblico. O Moisés do filme é o clássico herói moderno: ético, porém cético, que parte por força das circunstâncias em sua jornada solitária, lutando contra tudo e contra todos, até mesmo contra Deus, e prevalecendo no final. Para satisfazer o gosto popular, Moisés não é um velho: é jovem, não usa um cajado – ele o deixa em Midiã com seu filho - mas sim uma espada egípcia! O Moisés do filme não é um velho homem de fé, mas um um jovem guerreiro confiante em suas capacidades.

Para que Moisés se encaixe neste figurino trechos inteiro do relato de Êxodo tiveram de ser desconsiderados:

1) na Bíblia Moisés não é um herói idealizado, mas possui falhas de caráter: mata um egípcio em uma briga e enterra o cadáver para não ser descoberto. Quando descobrem o crime, foge para Midiã. No filme, Moisés mata um soldado quando este descobre que ele é hebreu e volta normalmente para o palácio. Ele não foge, protege Miriã e é expulso para o deserto por ordem do faraó – bem mais nobre, porém bem mais artificial e fantasioso.

2) no encontro com Deus na sarça ardente, no livro do Êxodo Deus se revela como o Deus de seus antepassados e lhe dá uma ordem detalhada do que ele deve fazer para libertar seu povo do Egito. Inclusive lhe dá provas de que estará com ele fazendo sinais com seu cajado. Já no filme, Deus diz muito pouco, quase nada, de quem é e do quer que Moisés faça para libertar seu povo. Pior: Moisés diz que é um pastor e Deus diz que não precisa de um pastor, mas sim de um general. Como é? Qualquer pessoa que tenha estudado minimamente a Bíblia sabe que o padrão divino de liderança é o pastor de ovelhas – Moisés era pastor, Davi era pastor, Jesus se apresentava como “o Bom Pastor”. No Êxodo vemos Moisés pastoreando ovelhas no deserto durante 40 anos como uma espécie de preparação que Deus lhe dá para poder guiar seu enorme povo pelo deserto e no filme, vemos Deus dizendo que não quer um pastor de ovelhas?

3) Na Bíblia, o velho Moisés reluta em aceitar a sua missão a ponto de irritar Deus. No filme, aceita imediatamente. No texto bíblico, ele volta para o Egito com esposa e filhos. No filme, ele volta sozinho. Na Bíblia, ele faz sinais com seu cajado. No filme ele faz atentados com um grupo guerrilheiro. Na Bíblia Moisés nunca viu o rosto de Deus, embora conversasse com ele face a face. No filme, Deus sempre aparece a Moisés como uma criança. Uma criança aparentemente mimada e sem sentimentos mais profundos pelo povo hebreu.

Por que tantas mudanças? Qual o seu objetivo ao descaracterizar assim não apenas a Bíblia como a história egípcia? Diretores não resistem a tentação de, ao filmarem histórias já contadas anteriormente, de darem o seu toque pessoal ou, como eles dizem, a sua “visão” da história, das metáforas e alegorias que elas encerrariam. Muitas vezes o resultado é não apenas inferior como também uma descaracterização da obra original. E qual teria sido a visão de Ridley Scott? Acredito que o filme seja o retrato de nossa época. O homem moderno sonha em ser como o Moisés do filme: senhor de si, guerreiro, forte, autossuficiente, com seu próprio senso de justiça. Não há espaço para um Deus Soberano sobre tudo e sobre todos, inclusive sobre a sua vida mortal. E quando se defronta com esse Deus o vê como uma criança mimada, uma poderosa criança mimada e caprichosa. Um Deus com “d” minúsculo, diante do qual se pode irar, retrucar, discutir. Um deus que 'um reflexo de si mesmo.

Já o Deus que o livro do Êxodo descreveu no encontro com Moisés é diferente, bem diferente. É um ser imaterial, sem forma, que não pode ser contido ou ignorado. Que tem plena consciência de quem é: o Ser Perfeito e Imutável, descrito no nome que se apresentou a Moisés: Ehyeh Asher Ehyeh: Eu Sou o Que Sou (em hebraico: אֶהְיֶה אֲשֶׁר אֶהְיֶה). O Ser infinitamente puro que disse a Moisés quando este se aproximou no monte Horebe: “tira as sandálias dos teus pés porque o lugar em que te encontras é uma terra santa.”

O Moisés do Êxodo compreendeu a sua pequenez diante do Ser que o comissionava e diante da missão para o qual era comissionado. Por isso foi escolhido. Ele era apenas o instrumento, Deus era o ator por trás da história que libertaria seu povo. O ceticismo e a vaidade de Ridley Scott não lhe deixaram ver a riqueza e a veracidade da narrativa do Êxodo e o forçaram a recontar a história de uma forma que fosse mais palatável para uma plateia igualmente cética e vaidosa. Por isso ele fracassou. Ao recontar a história de Moisés como um herói idealizado, perdeu-se a dimensão humana do personagem. Falta emoção ao filme. Irônico: sua vã tentativa de fazer uma descrição “verossível” do Êxodo, resultou em um uso indiscriminado de mistificações, deturpações e omissões, as quais acabaram por mostrar como o velho texto bíblico, ao descrever os personagens, suas falas e ações, é muito mais lógico, isento e realista do que qualquer filme ou obra de ficção posterior. Por quê? Porque descreve pessoas e fatos reais e não personagens idealizados. Obrigado, Ridley!


Uma dica Ridley: ao invés de ter contratado o Christian “Batman” Bale para o papel, não teria sido melhor o Ian “Gandalf” McKellen? Não me leve a mal, Christian Bale é um excelente ator. Mas imagine a cena: ao invés do Moisés a cavalo e de espada na mão cavalgando sobre o leito seco do Mar Vermelho, poderia estar pé de cajado na mão à la Galdalf gritando para o exército do faraó: “You shall not pass!” Que tal, hein? Não? Bom, deixa pra lá. Foi só uma sugestão.       

sábado, 12 de abril de 2014

Adulteens - Uma geração mentalmente adolescente





O que diferencia um adolescente de um adulto? Muitas coisas, inúmeras até. Mas podemos enumerar algumas.

Adolescentes - pelo menos a maioria deles - tem a dificuldade de pensar em longo prazo, se concentrando em apenas “viver o momento”, em experimentar sensações e prazeres novos sem se preocupar com as consequências (algumas vêm nove meses depois) e a acreditarem que alguma força invisível os irá proteger de qualquer mal ou consequência de seus próprios atos impensados. Alguns adolescentes e jovens tem um bela característica especial: são inconformados. Defendem com ardor quase fundamentalista as causas que consideram justas.

Já os adultos - pelo menos a maioria deles - tem com principais características a maturidade, o pensar além, a capacidade de assumir responsabilidades e de assumir as consequências (inclusive penais) por suas atitudes.

Pelo menos assim costumava ser. Costumava.

Tenho a impressão de que o liberalismo, o hedonismo e o comodismo (que levou uma multidão de jovens a continuarem na casa de seus pais – a geração canguru) transformaram a atual geração de adultos em adolescentes de 25 anos de idade ou mais. Difícil de acreditar? Bem, vamos a alguns exemplos:

Integrantes de banda punk Pussy Riot são condenadas na Rússia
O grupo de três jovens artistas ousou fazer o impensável: em fevereiro, elas fizeram uma performance de protesto contra Putin dentro de um dos locais mais sagrados da principal igreja de Moscou, a Catedral de Cristo Salvador.
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/08/120818_pussyriot_putin_pai.shtml


Na leitura da sentença, a juíza Marina Syrova afirmou que Maria Alyokhina, 24, Nadezhda Tolokonnikova, 22, e Yekaterina Samutsevich, 29, ofenderam os sentimentos dos fiéis ortodoxos e demonstraram uma "completa falta de respeito".
As acusadas alegaram que o protesto foi dirigido ao líder da Igreja Ortodoxa da Rússia por seu apoio a Putin.
http://www.bbc.co.uk/portuguese/ultimas_noticias/2012/08/120817_pussy_riots_lgb_rn.shtml


Ativista do Femen simula aborto em igreja de Paris
Uma ativista que disse pertencer ao grupo feminista Femen simulou nesta sexta-feira um aborto, antes de urinar em frente ao altar da igreja da La Madeleine, em Paris, indicaram fontes concordantes, no dia seguinte a uma ação parecida na Praça de São Pedro.
A ativista, com os seios expostos, se dirigiu para o altar na manhã desta sexta-feira no momento que cerca de dez integrantes de um coral ensaiavam.
Segundo o padre, a jovem depositou um pedaço de fígado de boi representando um feto antes de urinar nas escadas do altar.
http://noticias.br.msn.com/ativista-do-femen-simula-aborto-em-igreja-de-paris


Manifestantes quebram imagens sacras na Praia de Copacabana
Manifestantes que participam da "Marcha das Vadias" na tarde deste sábado quebraram imagens sacras na Praia de Copacabana, onde milhares de peregrinos aguardam o início da vigília da Jornada Mundial de Juventude (JMJ). A ação partiu de um casal que estava pelado, tampando os órgãos sexuais com símbolos religiosos, como um quadro com a pintura de Jesus Cristo. Esculturas de Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora de Fátima foram destruídas. Em um ponto do protesto, eles juntaram cruzes, jogaram camisinhas em cima e começaram pisar nos artigos religiosos. Um dos manifestantes chegou a botar um preservativo na cabeça de Nossa Senhora.
http://oglobo.globo.com/rio/manifestantes-quebram-imagens-sacras-na-praia-de-copacabana-9220356#ixzz2yckozavU


Rússia atenua acusações contra ativistas do Greenpeace detidos no país
A Rússia atenuou nesta quarta-feira as acusações contra um grupo de 30 ativistas do Greenpeace detidos durante um protesto em uma plataforma de petróleo no Ártico em 18 de setembro. Entre os acusados está a brasileira Ana Paula Maciel.
O processo inicial por pirataria foi substituído pela acusação de vandalismo. Em teoria, a mudança reduz a duração da pena de 15 anos para sete anos de prisão no caso de uma condenação.
Ativistas brasileiros do Greenpeace afirmaram que dizer que os ativistas são culpados de vandalismo é "uma acusação igualmente absurda". A entidade afirmou que contestará a ação da Justiça russa.
Os ativistas estavam no navio Artic Sunrise, que foi capturado por forças de segurança russas depois que membros de sua tripulação tentaram escalar uma plataforma de petróleo.
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/10/131023_greeenpeace_vandalismo_lk.shtml


O que todos estes fatos nos mostram? Adultos buscando os holofotes dos meios de comunicação por meio de atitudes bizarras ou mesmo polêmicas em defesas das mais diversas causas – algumas nobres, outras nem tanto – agindo muitas vezes com agressividade e completa falta de respeito com outras pessoas. Mas se seu ato é criticado ou mesmo penalizado pela quebra de alguma lei, agem como crianças, protestando indignados contra “o autoritarismo que viola o direito da livre expressão”.

O mais curioso disto tudo é que são pessoas liberais e cultas armadas de um fervor fundamentalista e uma postura autoritária, protestando e agredindo pessoas e instituições acusando-as de serem elas as fundamentalistas e autoritárias, em uma típica prática da máxima de que “os fins justificam os meios”. E como acreditam que o fim é justo, não acham que deviam ser punidas pelos meios que utilizaram. E o mais louco é que há gente séria que concorda com isso:
Especialistas afirmam que não há crime em beijo gay em culto
Professores de Direito ouvidos pelo jornal O Globo afirmam que as jovens que foram parar na delegacia após se beijarem em evento evangélico em que estava presente do deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP) não devem ser enquadradas no crime de perturbação a culto religioso. No domingo, duas jovens de 20 e 18 anos participavam de um protesto no evento V Glorifica Litoral em uma praça pública de eventos em praia de São Sebastião (SP) e deram um beijo na boca perto do palco. Ao microfone, Feliciano, que é pastor e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, disse que a Polícia Militar deveria “dar um jeito nas meninas” e afirmou que elas deveriam sair dali algemadas. Depois, chamou as jovens de “cachorrinhos”.
http://oglobo.globo.com/pais/especialistas-afirmam-que-nao-ha-crime-em-beijo-gay-em-culto-9996569#ixzz2ycmmKaYi

O beijo destas duas moças não foi um ato de carinho, mas um ato de protesto planejado, como elas mesmas confessaram posteriormente, para tumultuar o culto público onde estava presente o polêmico pastor e deputado federal Marco Feliciano. Um detalhe: um beijo de um casal hétero no meio de um culto é tão mal visto pelos fiéis quanto um beijo homossexual. Culto não é lugar de namoro. Ponto.

É curioso. Sob a desculpa da liberdade de expressão, eu posso interromper um evento – uma atitude totalitária – chocar e ofender as pessoas presentes – um ato agressivo – mas se tentarem me responsabilizar legalmente pelo o que eu fiz, digo que totalitário são os outros que estariam me perseguindo, que não posso ser responsabilizado pelo o que eu fiz pois tenho o direito quase sagrado de me expressar. E boa parte dos meios de comunicação vão reverberar mais a minha opinião do que a do agredido. Por quê? Porque a minha agenda de reivindicações é a mesma de boa parte da grande imprensa.Não é justo, mas é assim que é.

O problema é que há uma falácia neste argumento. A Constituição nos garante o direito de nos expressarmos livremente, mas não garante a impunidade desta expressão. Um deputado federal pode se expressar livremente no plenário da Câmara, mas se ele arrancar suas roupas e ficar nu no plenário como um ato de protesto contra qualquer coisa, será processador por quebra de decoro parlamentar. Se um racista expressar livremente seu racismo será processado. Se um fascista fizer a saudação nazista e se expressar contra os judeus será processado. É a lei. E a lei está certa.

Mas os adulteens querem fazer o que bem entendem sem nunca serem responsabilizados por seus atos como se adolescentes fossem. Sinto muito, não são mais. São homens e mulheres adultos, mesmo que ainda morem na casa de seus pais, buscando notoriedade para satisfazer seu ego infantilizado, sentido-se como defensores de uma causa nobre, mesmo que para isso tenham de invadir, ofender e chocar pessoas inocentes. Afinal, suas causas tem de ser defendidas com um fervor quase religioso, doa a quem doer. Se isto não é ser fundamentalista e totalitário, não sei mais o que é.

Mas como cobrar coerência de adolescentes, não é mesmo?

Quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino e raciocinava como menino. Quando me tornei homem, deixei para trás as coisas de menino. I Co 13.11






quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Maconha: uma questão de saúde pública. Mais do que você imagina.


A maconha não faz isso. Mas a maioria das pessoas que chegou neste estágio começou com ela.

Ninguém em sã consciência nega que a questão das drogas é um grave problema de difícil solução. Quando pensamos em drogas, nos vem à mente diversos problemas originados de seu consumo tais como: dependência química, alteração de personalidade, crises de abstinência, perda do senso de realidade, agressividade, e criminalidade.

Mas apesar disto, há quem defenda a descriminalização ou mesmo a legalização de seu consumo, ao menos daquela que consideram a menos nociva delas: a maconha.

Como já afirmei em meu post Discussão ou imposição?, o discurso dos defensores desta proposta dá a entender que a sociedade brasileira tem se recusado a pensar em soluções alternativas para o caos que as drogas geram ao afirmarem que: “chegou a hora de discutir a legalização das drogas” ou “temos de deixar de hipocrisia e discutir a descriminalização das drogas”.

Há um eufemismo aí. Quando falam em “discutir a questão” não estão querendo falar em “debater a questão”, mas sim em “Vamos discutir como e em que ritmo vamos implantar a legalização das drogas”.

Mas vamos discutir a questão. De verdade. Sem eufemismos.

Um argumento muito usado pelos defensores da descriminalização do consumo de drogas é que esta “deve ser abordada como uma questão de saúde pública e não criminal”, que não se deve tratar como criminoso alguém que está doente.

Na verdade, a coisa começa como um crime – compra, posse e consumo de drogas –, que progride para uma doença – a dependência química decorrente deste consumo. Mas esqueçamos por enquanto a questão criminal e vamos tratar da questão de saúde. E se o assunto é esse, nada melhor do que ouvir um profissional da saúde – um médico, o doutor Joaquim Melo:

A teoria de substituir a criminalização das drogas por uma abordagem de saúde pública é frágil na prática. Não é realista pretender trocar uma pela outra, pois elas estão relacionadas e tem de ser complementares e não excludentes.
Pode ser que a descriminalização melhore as estatísticas de segurança, mas inevitavelmente vai multiplicar as dificuldades na saúde. Com o agravante de que essa abordagem deixa de combater a origem para remediar as causas, o que, em qualquer circunstância, prejudica os resultados e aumenta os custos.”
Fonte: Prudência com a maconha. Artigo publicado no jornal O Globo de 24/08/2013

Ele deve saber do que diz, afinal, o dr. Melo é presidente da Associação Brasileira do Estudo do Álcool e Outras Drogas. Neste artigo ele questiona a eficácia e mesmo a lógica de liberar o consumo de drogas leves como a maconha, quando governo e sociedade fazem um grande esforço no sentido contrário, na restrição cada vez maior ao consumo de cigarro e bebidas alcoólicas – com bons resultados.

Mas o doutor Melo também citou que a descriminalização fatalmente levaria a uma multiplicação de dificuldades na saúde. Por quê? A resposta vem da Inglaterra:

Especialistas alertam que o público perigosamente subestima os riscos de saúde ligados a fumar maconha.
A Fundação Britânica do Pulmão (BLF, na sigla em inglês) realizou um levantamento com mil adultos e constatou que um terço erroneamente acredita que a cannabis não prejudica a saúde.
E 88% pensavam incorretamente que cigarros de tabaco seriam mais prejudiciais do que os de maconha -- quando um cigarro de maconha traz os mesmos riscos de um maço de cigarros.
A BLF afirma quer a falta de consciência é "alarmante".
Um novo relatório do BLF diz que há ligações científicas entre fumar maconha e a ocorrência de tuberculose, bronquite aguda e câncer de pulmão.
O uso de cannabis também tem sido associado ao aumento da possibilidade de o usuário desenvolver problemas de saúde mental, como a esquizofrenia.
Parte da razão para isso, dizem os especialistas, é que as pessoas, ao fumar maconha, fazem inalações mais profundas e mantêm a fumaça por mais tempo do que quando fumam cigarros de tabaco.
Isso significa que alguém fumando um cigarro de maconha traga quatro vezes mais alcatrão do que com um cigarro de tabaco, e cinco vezes mais monóxido de carbono, diz a BLF.”

Segundo o dr. Melo, países que adotaram a descriminalização viram o consumo das drogas crescerem e com usuários que começavam a consumi-las cada vez mais cedo. Mais ainda: ele afirma que há estudos que apontam que parte destes novos usuários deve evoluir para o consumo de outras drogas, como o crack.
Ou seja, a solução proposta não vai resolver o problema, apenas mascarar sua faceta criminosa, mesmo que isto leve a um aumento exponencial de consumidores e – por consequência – dependentes que sobrecarregarão ainda mais o já combalido sistema de saúde do país.
A solução apresentada é muito conveniente. Se deixa de ser crime, pode ser consumido. Se for consumido por uma decisão livre do cidadão é um direito dele. Mas se o consumo gerar tudo o que já foi exposto acima: dependência, tuberculoze, câncer, esquizofrenia ou mesmo levar o indivíduo à cocaína e ao crack, aí a responsabilidade é do Estado que tem o dever de cuidar dele.
E aí vivemos o paraíso hedonista de nossos formadores de opinião: o indivíduo nunca é responsabilizado por seus atos e escolhas, ao contrário, é tratado como vítima do destino. O vilão é o governo que não tem hospitais e clínicas de recuperação suficientes, ou políticas públicas suficientes ou campanhas educativas suficientes.
Na verdade, já se está fazendo isso. Ao invés de se fazerem campanhas alertando para os perigos do consumo de drogas, fazem-se campanhas para vitimizar o usuário de drogas:

A carioca X-Tudo Comunicação Completa assina campanha de apoio ao projeto de lei pela descriminalização do usuário de drogas, que irá tramitar no Congresso.
Criada para a CBDD (Comissão Brasileira sobre Drogas e Democracia), com apoio da ONG carioca Viva Rio, a comunicação discute o tema a partir do bordão : “É justo isso?”.
A meta é reunir 1,3 milhão de assinaturas e apresentá-las no Congresso, em 2013.

Luana Piovani, Luiz Melo, Isabel Fillardis, Felipe Camargo, Jonathan Azevedo e Regina Sampaio, entre outros, protagonizam a campanha, e interpretam casos reais que aconteceram por causa de legislação que não difere o usuário do traficante. Também há a participação de dois defensores públicos, Rodrigo Pacheco e Daniel Nicory.
A comunicação conta com filmes para TV, anúncios para revista e jornal, spots para rádio e peças para internet.”

Ou seja: uma pessoa conscientemente decidiu comprar e consumir drogas, sabendo que isto é um crime. Algumas dessas pessoas compraram em grande quantidade seja para fazer um estoque próprio, seja para rachar com outros usuários, mas foram presas, julgadas e, algumas delas, condenadas. É justo isso? Sim, é justo, pois foi a escolha delas. Compraram e consumiram drogas sabendo de seus riscos. Não há porque tratá-las como vítimas, a não ser de si próprias.

Não é interessante? Se a campanha é contra o consumo não aparece nenhuma celebridade. Mas se a campanha é para legalizar ou coitadinhizar o usuário, aí não faltam nomes famosos. Isto acontece porque em nossos formadores de opinião glamurizam o alternativo, o marginal o outsider e tratam o correto e honesto como careta, conservador, retrógrado e burguês. O resultado é esta inversão de valores que vemos diariamente em nossa sociedade.

Mas deixemos de lado minha opiniões e voltemos a questões de saúde. Saúde mental. Qual a opinião do psiquiatra Ronaldo Laranjeira, professor da Unifesp a respeito do impacto do consumo de maconha na mente de nossos jovens e adolescentes?

"Há quase 500 mil adolescentes usando maconha regularmente. Isso dá uma visão do tamanho do problema (...) e há um impacto do ponto de vista de saúde pública, desemprego e suicídio", explica.
Laranjeiras comentou ainda que, desde 2006, com a mudança da lei para despenalizar o uso de drogas, é possível que tenha ocorrido um aumento no consumo de maconha. Para ele, houve uma "frouxidão legislativa", que alterou a figura do usuário e impediu a pena de prisão com novas sanções alternativas.”

O professor Laranjeira tem base para fazer esta afirmação. Ele é um dos organizadores do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad) realizado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). E ele também aponta as consequências neurológicas que esta frouxidão tem trazido para outros países:

"Nos EUA, a maior busca de dependentes químicos por tratamento hoje é de usuários de maconha. Dados da Nova Zelândia apontam que tem crescido o número de pessoas com transtornos psicóticos e esquizofrenia em decorrência do uso da maconha. Nenhuma outra droga causa esquizofrenia, e essa é a pior doença da psiquiatria. Quem vai cuidar dos 10% dos usuários expostos a esse risco? Quem é a favor da legalização deveria responder isso", diz Laranjeira.”
Legalizar o consumo significa facilitar o acesso. Sua consequência direta será a ampliação de usuários. Ainda mais em uma sociedade em que o consumo de maconha é retratado como algo libertário, descolado e moderno enquanto a abstenção é visto como algo conservador e careta. Ou seja, do ponto de vista imagético, é quase irresistível para um adolescente ou jovem resistir a um convite para “dar um tapinha”. Os mesmos que defendem a sua descriminalização são aqueles que constroem uma imagem sedutora de seu consumo. Se hoje temos no Brasil, segundo os estudos do Lenad, 3% da população adulta tendo consumido drogas no último ano, com a legalização poderemos chegar em pouco tempo ao nível de consumo dos EUA: 10% da população adulta. E o nosso já combalido sistema de saúde é que terá de arcar com isso. A "questão de saúde pública" se tornaria uma epidemia.
Os doutores Melo e Laranjeiras concordam que a descriminalização não ajuda em nada e vão além: parte da resposta está é no endurecimento no tratamento da questão – o que não significa absolutamente colocar usuário na cadeia:
Os países com menor consumo de maconha, como Suécia e Japão, têm mais rigor e restrições. A solução não é colocar os usuários na prisão, mas nesses lugares há uma certa intolerância com o consumo. Ou vamos por esse caminho ou liberamos e aumentamos o uso. Será que a minoria vai determinar e pautar o que a gente quer como sociedade?"

As políticas relativas às drogas lícitas, aliás, oferecem mais informações. Está claro o sucesso de medidas mais rígidas em relação ao cigarro, com diminuição expressiva no número de fumantes. Da mesma maneira, a Lei Seca apresentou inegáveis resultados positivos. Em ambos os casos, o raciocínio é o inverso das propostas sobre a maconha”.
Fonte: Prudência com a maconha. Artigo publicado no jornal O Globo de 24/08/2013

Sabemos que alguma pessoas tem uma maior predisposição à dependência química do que outras. Assim como há pessoas que consomem maconha sem se viciarem há também pessoas que não apenas criam dependência como aprofundam sua dependência consumindo outras drogas mais pesadas.

Ao descriminalizar o consumo de maconha para que uma parcela ínfima de pessoas descoladas possam ter o seu barato sem serem importunadas, corremos um risco real: o de facilitar o acesso a esta droga a um número muito maior de pessoas que carregam dentro de si, sem saberem, a predisposição genética à dependência química e a todas as desgraças que vem com ela. Aproveitando o tema da campanha pró-descriminalização, deixo uma pergunta no ar: é justo isso?

A saída não está na descriminalização do consumo de drogas. Está no abandono voluntário de seu consumo daqueles que fazem uso “recreativo” delas. As Sagradas Escrituras já mostravam o caminho:

Ora, nós que somos fortes devemos suportar as debilidades dos fracos e não agradar-nos a nós mesmos. Portanto, cada um de nós agrade ao próximo no que é bom para edificação”. Rm 15.1

Para aqueles que se sentem injustiçados por terem de, pela força da lei, abrir mão de um prazer para que um desconhecido de organismo fraco não venha a se tornar um dependente químico, sugiro que veja isto por um outro ângulo. Não abra mão apenas por que a lei exige. Abra mão por que você se importa. Porque você é solidário. Abra mão porque a vida de um desconhecido é mais importante do que os minutos de relaxamento provocado por um vapor barato. Isto seria um grande ato de amor pela vida.