sábado, 18 de agosto de 2018

Um Messias para chamar de seu

"Give us Barabbas" - Illustrations from volume 9 of The Bible and its Story Taught by One Thousand Picture Lessons, edited by Charles F. Horne and Julius A. Bewer, published in 1910. 

Quando Jesus nasceu, Israel não era mais Israel. Era chamada agora pelos conquistadores romanos de Palestina, fatiada em diversas regiões administrativas controladas por fantoches de Roma como os Herodes (Antipas na Galileia e Filipe na Idumeia) e por um representante direto de Roma na Judeia, o governador Pôncio Pilatos.
Esta dominação ocorreu após o esfacelamento da dinastia dos Hasmoneus, o último governo judaico após as guerras judaicas de libertação contra o império selêucida (que impusera a helenização forçada dos judeus) deflagrada pelos Macabeus. Mas este breve período de governo judaico careceu de legitimidade junto ao povo, visto que a dinastia hasmoneu não era de origem davídica e sem o sumo-sacerdote era de origem aarônica.
Este vácuo político religioso somado à ocupação e opressão estrangeira levou ao povo judeu a ansiar pela vinda do Messias, mas não daquele descrito pelo profeta Isaías no capítulo 53 de seu livro como o servo sofredor, mas um messias político, guerreiro que libertasse o povo de seus inimigos externos.
Mas alguns judeus se cansaram de esperar pelo Messias e resolveram agir. Surgiram os zelotes – guerrilheiros para os judeus, terroristas para os romanos – que por meio de emboscadas e ataques surpresa, lutavam sem sucesso contra a ocupação romana.
Então veio Jesus. Mas sua mensagem não era o que se esperava: não veio falar de uma libertação de um inimigo externo, mas sim de um interno, o pecado: “arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1.15) era sua mensagem. Pior ainda sua mensagem era claramente pacifista: “Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra; e ao que te houver tirado a capa, não lhe negues também a túnica.” (Lc 6.19. Seu desapego por questões políticas era tanto que não questionou o pagamento de tributo ao império pagão e opressor: “dai pois a César o que é de César” (Lc 20.25). Para que não restasse nenhuma dúvida, deixou claro à Pilatos que seu reino – sim Jesus é um Rei – não tem conotação política - “meu reino não é deste mundo” (Jo 18.36).
De fato, Jesus era um messias diferente daquele que os judeus tanto esperavam em seu imaginário. Eles queriam alguém que resolvesse logo a situação, que com um único golpe de espada mágico expulsasse os inimigos do povo, da Lei e de Jeová. Um líder guerreiro de braço forte, como havia sido Davi, afinal, o Messias não seria filho de Davi?
Então Pilatos propôs uma eleição direta ao povo de Jerusalém:
Ora, no dia da festa costumava soltar-lhes um preso qualquer que eles pedissem.
E havia um chamado Barrabás, que, preso com outros amotinado- res, tinha num motim cometido uma morte.
E a multidão, dando gritos, começou a pedir que fizesse como sempre lhes tinha feito.
E Pilatos lhes respondeu, dizendo: Quereis que vos solte o Rei dos Judeus?
Porque ele bem sabia que por inveja os principais dos sacerdotes o tinham entregado.
Mas os principais dos sacerdotes incitaram a multidão para que fosse solto antes Barrabás.
E Pilatos, respondendo, lhes disse outra vez: Que quereis, pois, que faça daquele a quem chamais Rei dos Judeus?
E eles tornaram a clamar: Crucifica-o.”
Marcos 15:6-13
Para a multidão, a mensagem de Jesus de amor ao próximo, perdão ao inimigo, de diálogo e reconciliação com párias de seu tempo (leprosos, publicanos corruptos e samaritanos) era um escândalo para o povo, assim como sua denúncia da espiritualidade vazia era um perigo para os líderes religiosos de seu tempo. Para estes, Jesus era um fraco, alguém que só tinha palavras a oferecer; nos dias de hoje diriam que era só “mimimi”.
Então o povo votou na única escolha lógica e racional. Tempos extremos exigem medidas extremas. Escolheram a Barrabás, o homem da espada.
Barrabás foi varrido para o limbo da história. Fora da Bíblia, ele não existe. Sua liderança política contra os romanos se mostrou um engodo. Mas os judeus não desistiram de conquistar sua libertação à força pois Deus estaria com eles, afinal, eram o povo escolhido. De fato, décadas depois eclodiu uma nova revolta judaica. Mas no ano 70 d.C. o general Tito de Roma invadiu uma Jerusalém já enfraquecida por disputas internas entre os diversos grupos de rebeldes judeus, cada um com seu próprio messias. Um banho de sangue varreu as ruas da cidade. O templo foi destruído e nunca mais reerguido. O povo judeu, mais uma vez espalhado pelo mundo.
Enquanto isso, os seguidores do Messias rejeitado, crucificado e ressuscitado, também se espalhavam pelo mundo conquistando-o não pela força da espada, mas pela força do mesmo discurso de seu Mestre: “arrependei-vos e crede no evangelho”.
Em nosso país e no mundo vemos um fenômeno político em pleno desenvolvimento: neste mundo pós-moderno, a crise de credibilidade das instituições (governos, partidos, mídia e até mesmo igrejas) tem levado a muitos a rejeitar os princípios básicos da democracia e a sonharem com líderes que resolvam seus problemas com uma “canetada” só. Não é à toa que líderes autocráticos como Putin, Erdogan, Chávez, Trump têm se levantado no mundo. Também não é a primeira vez que isto acontece. Na primeira metade do século XX outros se levantaram: Franco, Mussolini, Stalin e, Hitler. O resultado todos nós conhecemos.
Porém, há uma diferença entre os líderes populistas de hoje e os do passado. Os de hoje, todos eles, chegaram ao poder legitima e democraticamente eleitos pelo voto popular. Depois de eleitos, elaboram mecanismos para enfraquecerem ou subordinarem os outros entes da República (Legislativo e Judiciário) além de se colocarem em guerra aberta contra um importante representante da sociedade civil: a imprensa livre. Para que seus planos de perpetuação do poder se concretizem é também necessário uma legião de adoradores no meio do povo que os defendam contra tudo e contra todos e uma oposição amordaçada que não consiga denunciar seus desmandos.
O populismo não é de direita nem de esquerda, ele é essencialmente idólatra, voltado para a adoração cega e acrítica de um líder como o salvador da pátria, o redentor da nação, ou seja, estamos falando de um tipo de anticristo. Alguém que tenta trazer para si atributos que somente devem pertencer a uma única pessoa em toda a História.
No Brasil, vemos isto se repetindo inúmeras vezes ao longo de nossa história: Getúlio Vargas, o pai dos pobres. Jânio Quadros, o não-polítoco contra a corrupção, Fernando Collor, o caçador de Marajás. Lula, o novo Pai dos pobres. Jair Bolsonaro, o mito.
Jair Messias Bolsonaro tem seduzido a uma grande parcela da população brasileira, especialmente entre evangélicos com seu discurso conservador contra uma onda liberalizante que tem varrido nosso país de forma deliberada e organizada à qual fazem parte partidos políticos, empresas de mídia e meio acadêmico.
Esta onda é real e é justificável o receio que ela tem causado nas famílias e igrejas. Bolsonaro encarnou para estas pessoas a solução fácil para um problema complexo. A questão é o preço a se pagar por esta solução. E sempre há um preço. Junto com seu discurso conservador há outro discurso que é comprado junto e que nunca fez parte das aspirações da comunidade evangélica brasileira: enfraquecimento das instituições democráticas, valorização do uso da violência e da força – não apenas policial mas também dos “cidadãos de bem” - contra a criminalidade, o uso do deboche e do escárnio contra grupos com os quais não se simpatiza, tais como mulheres, quilombolas, etc.
Por que este fenômeno acontece? A igreja está com medo e acovardada. Uma igreja que não ora mais, que não evangeliza mais, que não proclama mais o evangelho da salvação custe o que custar e que ficou confortável em seu ambiente social está vendo o mundo à sua volta se transformar e crescer contra ela. Uma sociedade que no passado era cristã, hoje se trona pós-cristã e até mesmo anti-cristã. Mas Cristo havia dito que nos enviaria como ovelhas no meio de lobos, porém a igreja moderna parece não acreditar mais que o bom pastor a protegerá, então parece estar querendo contratar um segurança para afugentar os lobos.
Uma igreja que embora tenha crescido na sociedade brasileira não se fez relevante nesta mesma sociedade e, por isso, tem medo de um plebiscito acerca do aborto, pois não sabe o como a sociedade se posicionará acerca desta questão. Esta igreja está tão consciente que não fez o suficiente para esclarecer as pessoas sobre a monstruosidade que é o aborto que chega ao ponto de confundir ser à favor do plebiscito com ser à favor do aborto em si. Esta igreja tem medo que o povo brasileiro diga sim, por isso sonha com um líder que autoritariamente diga não por ela.
Mas isto em si mesmo, embora triste não é o real problema.
Bolsonaro também não é o problema. Na verdade, não há problema algum em cristãos darem à ele um voto de confiança por acreditarem que ele seja o melhor candidato para o atual momento do país. O problema é ver cristãos praticando idolatria.
O Salmo 115.8 afirma que idólatras tornam-se semelhantes aos seus ídolos. Por isso, fiquei realmente assustado e triste ao ver pessoas que se identificam como cristãos fazendo uma campanha apaixonada, agressiva e até mesmo debochada do candidato Jair Bolsonaro.
Ironicamente, Bolsonaro, o candidato que nestas eleições melhor representa o messianismo político, tem Messias como seu nome do meio. Alguns deles chegaram até mesmo a afirmar que “Bolsonaro é o messias que salvará o país”. Isto sim, é preocupante.
Creio firmemente que um cristão com seus olhos fitos em Cristo participa de um processo eleitoral de forma crítica e desapaixonada, pois sabe que a verdadeira solução para os problemas deste país não virá de mãos humanas mas por meio de uma verdadeira conversão de nosso povo a Cristo, por meio do arrependimento dos pecados e da busca por se viver segundo os padrões do Reino. Este país não mudará de cima para baixo, mas de dentro para fora. Mas para que isto aconteça, para que o aborto se torne em uma lembrança amarga do passado. Para que, nossos presídios fiquem vazios por que crimes não são mas cometidos, para que a mulher, o negro e o pobre tenham o reconhecimento e o tratamento digno a que tem direito, é preciso que a Igreja saia de sua letargia e pregue, propagandeie o verdeiro Messias que irá redimir esta nação corrompida pelo pecado. E isto é nossa missão como igreja mas, como diz Paulo: “Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue?” Rm 10.14
É fundamental que a igreja brasileira perca seu medo, pois este além de ser um péssimo conselheiro é inimigo da fé. É fundamental que ela entenda que é uma minoria, aprisco de ovelhas em meio a lobos, embaixadora de um Reino vindouro que não é este e proclamadora de que ele está às portas.
Mas para isso é necessário que façamos as escolhas certas e não estou falando das próximas eleições.
Quando entregamos nosso coração e nossas esperanças a um outro messias que não o verdadeiro e único, estamos também trocando os princípios e valores do Reino por outros princípios e valores que, por mais parecidos que sejam, não são iguais. Isto é válido para qualquer cristão que idolatre ideologias, sejam elas de direita ou de esquerda. Quando a igreja se identifica com uma ideologia humana, ela automaticamente deixas de interpretar o mundo à luz do evangelho de Cristo para interpretá-lo à luz de Karl Marx, Adam Smith, Simone de Beauvoir ou mesmo Adolph Hitler. Deus exige exclusividade. Para um verdadeiro cristão, bandido bom não é bandido morto, tampouco o bandido é uma pobre vítima da sociedade. Um bandido, tal qual o que foi crucificado ao lado de nosso Senhor, é um pecador que, como cada um de nós, precisa desesperadamente de um encontro com Cristo e ter sua vida transformada.
O Israel do passado desprezou a Jesus por não se parecer com o padrão messiânico que eles imaginavam e então escolheram a Barrabás. A pergunta que me faço hoje olhando para a igreja brasileira de hoje é: será que nós, no lugar deles, escolheríamos diferente?

Portanto, também nós, considerando que estamos rodeados por tão grande nuvem de testemunhas, desembaracemo-nos de tudo o que nos atrapalha e do pecado que nos envolve, e corramos com perseverança a corrida que nos está proposta, olhando fixamente para o Autor e Consumador da fé: Jesus, o qual, por causa do júbilo que lhe fora proposto, suportou a cruz, desprezando a vergonha, e assentou-se à direita do trono de Deus.” Hb 12.1,2

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Santander - um case sobre Liberdade de Expressão e Opinião Pública



Percebo uma clara divisão entre aqueles que acham que existem limites para a produção artística e aqueles que pensam exatamente o contrário.

Eu vejo a Arte como uma forma de expressão, uma ferramenta de comunicação. Seja ela direta ou metafórica, sua estética está a serviço de uma mensagem e não há mensagem que não seja fruto de uma visão de mundo, de uma ideologia, ainda que a intenção do artista com sua obra não tenha um caráter político-partidário, ainda que vise o puro entretenimento, sua produção artística será fruto de suas aspirações, visões conceitos e – por que não – preconceitos coletados ao longo de sua existência.

Isto posto, uma produção artística ao ser exposta ao público, tem de estar aberta tanto ao aplauso quanto à vaia, tanto ao sucesso de público quanto ao ostracismo, tanto à geração de reflexão quanto à incompreensão.
Ou seja, uma obra de arte não está imune à crítica, nem mesmo a execração pública se esta não for considerada boa o suficiente, não for compreendida ou se sua intenção for chocar o distinto público.

Esta postura de nossos "formadores de opinião" de que não temos o direito de externar a nossa contrariedade ou indignação porque não temos bagagem cultural para apreciar a arte e ao fazermos expomos nossa ignorância não passa de elitismo preconceituoso. Se você gosta de uma manifestação artística, você não apenas aplaude como recomenda. Se você não gosta, você não aplaude, vaia e não recomenda. Se, porém, a manifestação artística de agride, você devolve a agressão na forma de protesto e boicote. Foi exatamente isto que aconteceu com a exposição patrocinada pelo Santander Cultural. Uma sociedade, por mais plural que seja, é feita de valores, crenças e aspirações comuns, por isso, cabe esclarecer que existem limites que não devem ser ultrapassados, nem mesmo pela arte, ainda mais se esta se propõe a ter uma função conscientizadora a respeito de alguma causa.

Estamos falando de ilustrações de Nossa Senhora com um bebê chimpanzé no colo com uma típica auréola de santidade sobre sua cabeça; de hóstias com nomes de órgãos humanos e termos chulos escritos nela, de uma imagem de Cristo com múltiplos braços segurando alguns objetos de cunho sexual e de uma quadro com diversos personagens praticando sexo de múltiplas formas, inclusive com um animal.

Aqueles que defendem a liberdade artística e de expressão devem entender que esta regra vale para os dois lados, tanto o artista quanto o público tem igual direito de se expressar. E foi exatamente isto que aconteceu neste caso: o banco promotor do evento teve a liberdade artística de escolher as peças que queria expor e povo teve a liberdade de expressão de criticar algumas peças desta mostra. Quem encerrou a exposição não foi o poder público mas o próprio banco que, em uma nota, reconheceu que algumas peças expostas, de fato, feriam crenças e sensibilidades e que isto não representava um ato de respeito a diversidade. Afinal, uma enorme parcela da população foi agredida em suas crenças e valores. Ou o propalado conceito de respeito a diversidade só vale para alguns?

Não existe liberdade plena de expressão. Tal qual as vias urbanas onde faixas de pedestres e sinais de trânsito organizam o direito de ir e vir de todos, os fluxos de informação são regidos por leis para assegurar que calúnias, difamações, pirataria, conteúdo inadequado para certas faixas etárias e ideologias racistas não sejam propagadas impunemente, mesmo que em formato de expressão artística.
Há limites para a Arte? E se a exposição ao invés de ilustração de zoofilia fosse uma foto de um homem abusando de um animal, seria também arte? E se, ao invés de uma foto fosse uma performance ao vivo, seria também arte? E se, a temática fosse arte nazista, exaltando uma suposta raça pura e ridicularizando judeus, negros e homossexuais, será que os atuais defensores da liberdade de expressão também apoiariam esta exposição ou se juntariam aos demais a pregar o seu boicote? Sim, há limites para a Arte, como há limites para tudo nesta vida.

Claramente o conteúdo desta mostra não era adequado para crianças, mas a organização da mostra não pensa assim. Segundo o jornal Gazeta do Povo:

Uma das medidas destinadas ao público estudantil em relação à Queermuseu foi a impressão de folders explicativos, de 24 páginas, contendo textos sobre os quadros. A tiragem prevista foi de 15 mil exemplares. Também estavam previstas impressões de mil unidades de um material chamado de Caderno do Professor, destinado a docentes que acompanhassem os estudantes no centro cultural.”

Qual o objetivo de expor crianças a este tipo de conteúdo? Conscientização, dirão seus defensores. Doutrinação, dirão seus detratores. Esta é uma questão semântica: se concordamos com a causa, chamamos de conscientização, se não, chamamos de doutrinação.
Para mim, claramente era uma ferramenta de doutrinação ideológica. Mas o respeitável público disse não. Respeitemos a vontade do público.

Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai. Filipenses 4:8

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Reforma, Pentecostalismo e Star Trek



Quem me conhece sabe que sou meio nerd. Tá bom, bastante nerd. E um bom nerd que se preze sabe a diferença entre Star Wars e Star Trek.
Star Trek (antigamente conhecida no Brasil como Jornada nas Estrelas) era uma série de TV de ficção científica criada na década de 60 por Gene Rodenberry no auge da Guerra Fria e que contava as aventuras do capitão Kirk e sua tripulação multiétnica da nave estelar Enterprise “audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve”. A série original durou apenas 3 anos mas teve vários reprises, deu origem a diversas séries derivadas e a inúmeros filmes no cinema.
Star Wars (antes conhecida no Brasil como Guerra nas Estrelas), criada por George Lucas, é uma série de filmes para o cinema iniciada no final dos anos 70. Embora pareça ficção científica, na verdade é uma fantasia espacial que conta a saga da família Skywalker a partir de Anakin (que viria a se tornar no icônico vilão Dart Vader) e depois por seus filhos Luke e Leia. Já está no sétimo filme e uma legião de fãs aguarda ansiosamente o oitavo. Confundir uma série com a outra é quase uma ofensa pessoal para seus ardorosos fãs.
Talvez você não saiba, mas sou um trekker, isto é, um fã de Jornada nas Estrelas. Estou escrevendo este texto com minha miniatura da Enterprise em frente ao monitor e minha caneca de café com o rosto do capitão Kirk, senhor Spock e o dr. McKoy ao lado.
Mas o que isto tem a haver com Reforma e Pentecostalismo?
Neste ano, Star Trek comemora 50 anos do lançamento da série e muitos afirmam que o sucesso da série clássica se devia a forte química que havia entre os três personagens principais – aqueles da minha caneca. Mas mais tarde eu volto a este assunto.
Ano que vem serão comemorados os 500 anos da Reforma Protestante, cujo evento-marco foi a fixação por Martinho Lutero de 95 teses na porta da igreja de Wittenberg na Alemanha em 1517, mudando para sempre a história do cristianismo ocidental.
O protestantismo rompeu o monopólio da interpretação da Bíblia, defendeu a separação entre a Igreja e o Estado, e quebrou paradigmas ao retirar do sacerdote a mediação entre os homens e Deus proclamando o sacerdócio universal dos crentes. Seu fervor evangelístico e sua produção teológica levaram a se espalhar rapidamente não apenas na Europa mas em todos os continentes.
Porém, com o advento do Iluminismo e a hegemonia do pensamento racionalista, pouco a pouco, a teologia protestante foi se afastando de seu fervor inicial e de sua devoção à Bíblia como texto sagrado, até desaguar no século XIX em uma aversão ao sobrenatural e ao miraculoso que, muito contribuiu para o esfriamento espiritual de toda a Europa.
Além disto, neste ano de 2016 o Brasil sediará a 24a. Conferência Mundial Pentecostal, em São Paulo.
Embora já centenário, o pentecostalismo parece ser a antítese do protestantismo do início do século XX: espontâneo, popular, emocional mas, acima de tudo, fervorosamente aberto ao sopro do Espírito Santo. Hoje, não há dúvida de que o cristianismo que tem crescido no mundo, especialmente nos países pobres e em desenvolvimento, é o pentecostal. Mas nele também há senões.
Tanto nos EUA quanto no Brasil, o movimento pentecostal nasceu nas comunidades mais humildes, sendo rechaçado e discriminado pelas elites sociais e religiosas de seu tempo. Não é de se estranhar que seus pioneiros, especialmente no Brasil, tenham desenvolvido um forte anti-intelectualismo e, com base no que viam acontecer nas igrejas protestantes históricas, medo de que o estudo teológico viesse a enfraquecer a sua fé e a sua comunhão com Deus. Mas esta postura teve um alto preço. A falta de um arcabouço teológico mais profundo levou o pentecostalismo a se tornar um solo fértil para que surgissem algumas igrejas de forte radicalismo nos costumes e também para um misticismo não bíblico e até mesmo sincrético.
De um lado, uma igreja extremamente racional. De outro, uma igreja altamente emocional. Ambas mutuamente se estranhando, liturgicamente, teologicamente e culturalmente. E isto me lembra Star Trek.
Como citei no início do meu texto, a famosa série sessentista era composta por uma carismática trinca de personagens: o capitão Kirk, o oficial de ciências Spock e o médico da nave, dr. McKoy.
Um dos mais famosos personagens da cultura pop de todos os tempos, Spock era um extraterrestre do planeta Vulcano. Filho de pai vulcano e mãe terráquea, ele foi criado segundo a cultura vulcana na qual os sentimentos devem ser todos eliminados pois somente pela lógica se poderia suplantar a selvageria. Por isso, o personagem magistralmente interpretado pelo recentemente falecido Leonard Nimoy (quase) nunca sorria. O “quase” se deve ao fato de que, de fato, Spock tinha sentimentos, mas devido a sua cultura vulcana ele os escondia de todos. Sua frase mais famosa no seriado era saudação vulcana “vida longa e próspera”.
Por outro lado, o doutor McCoy era seu oposto: passional, irritadiço, falava o que lhe vinha à cabeça e com frequência se irritava com a frieza de Spock diante das mais desesperadoras situações. Eram momentos deliciosos na série clássica as birras e provocações mútuas entre os dois personagens.
Os dois eram os melhores amigos do capitão da USS Enterprise, James T. Kirk, o qual parecia ser a junção perfeita das melhores qualidades de ambos, alternando nos momentos certos a frieza necessária para tomar decisões com o envolvimento emocional com sua tripulação e demais pessoas que passaram pela série, tão importante para que se queira realmente ajudá-los em seus problemas. Não raro, Spock e McCoy se surpreendiam com a forma como o capitão Kirk conseguia salvar o dia no final de cada episódio.
Não é muito difícil associar o jeito vulcano de ser do oficial de ciências da Enterprise com o estilo formal, intelectualizado e um tanto frio das igrejas protestantes clássicas. De igual modo, é visível a passionalidade do dr. McCoy em muitas atitudes das igrejas pentecostais.
Creio que a igreja do século XXI tem de ser menos Spock e McCoy e ser mais Kirk, ou seja, ao invés de se criticarem mutuamente, deveriam aprender com a plenitude de Cristo a se tornarem mais equilibradas e centradas e, ao mesmo tempo, intelectualmente preparadas e calorosamente amorosas.

Afinal, estamos todos embarcados em um mesmo empreendimento (em inglês, enterprise) chamado Igreja, e não vai ser brigando uns com os outros que auxiliaremos nosso Eterno Capitão a levar a tripulação desta nave terrestre aos céus, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve.






















segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Comunicação na família


- O que há querida? Você está tão calada?
- Eu? nada.
- Como nada? Estou vendo o seu rosto sério. O que foi?
- Nada.
- Pela sua cara, aconteceu tudo. O que foi?
- Vai dizer que você não sabe?
- Mas como vou saber se você disse?
- E precisa?

Quem nunca passou ou presenciou um diálogo assim? Embora a comunicação seja algo fundamental para a convivência e o relacionamento humanos, nem sempre ela é fácil, mesmo dentro do lar. Afinal, homens e mulheres, adultos e crianças, tem idades, linhas de raciocínio, criação, culturas e idades diferentes e, por isso, formas diferentes de entenderem e se comunicarem.

Vejamos alguns elementos da boa comunicação:

LINGUAGEM – A arte de se comunicar
Quem
diz o quê
Em que meio
Como
Para quem
Comunicador
mensagem
Visual (Escrita, Pintada, Desenhada ou Gesticulada
Linguagem
Receptor
Áudio (Falada ou Cantada)
Áudiovisual


Para que haja comunicação, é necessário que comunicador e receptor possuam uma mesma linguagem, isto é, que se utilizem de um grupo de símbolos estruturados de maneira a ter um mesmo significado para ambos.
As gírias são um código diretamente ligado ao grupo social ao qual o indivíduo está integrado. Todo grupo fechado possui sua gíria. Ex.: Contrução Civil, militares, crentes, etc.
Um grupo fértil para gírias são os adolescentes. Enquanto nos demais grupos as gírias se mantém inalteradas durante um muito tempo, as gírias dos adolescentes mudam constantemente, dificultando o seu acompanhamento por observadores externos ao grupo, como os pais, por exemplo.

CULTURA – O chão sobre o qual está alicerçada a linguagem
Para se comunicar efetivamente com seus filhos, é necessário se conhecer, e bem, o caldo cultural no qual estão imersos. O que vêem, ouvem, leem. Quais são seus referenciais de vida? Que personalidades admiram ou desprezam? Quais seus sonhos e aspirações? Sem conhecer esses elementos um diálogo aberto se torna muito difícil.

ADOLESCÊNCIA – Segundo o pr. Eliezer Morais a adolescência é “uma etapa onde ocorrem as mais importantes transformações ao nível físico, intelectual, emocional e social. A adolescência é um processo dinâmico de metamorfose que transforma o ser criança em um ser adulto.”
Quando começamos a crescer, nossos referenciais mudam. Buscamos nossa própria identidade e nos espelhamos, ao invés de em nossos pais, em nossos colegas que estão passando por esta mesma fase de mudanças e descobertas. Esta afinidade gera uma aproximação que dá origem a um grupo, uma “galera”.
O vestuário, a música e a linguagem são tentativas dos adolescentes de construírem sua identidade. Esses códigos não são compreendidos por seus pais e líderes e se não houver um clima propício para o diálogo, muitos conflitos poderão surgir no relacionamento entre adolescentes e adultos.
Mais uma vez, como escreveu o pr. Eliezer Morais “a oposição visa, primeiramente e, sobretudo o meio familiar: o adolescente, para provar a si mesmo a sua independência, defende sempre posições contrárias às de seus pais e outros adultos. Ele também não aceita ser orientado na escolha dos amigos, das leituras, diversões e posições.”
É necessário conhecer os códigos lingüísticos e estéticos dos adolescentes para poder criar uma empatia e estabelecer canais de comunicação efetivos para que eles não se sintam sozinhos e incompreendidos, como na música do Gabriel, o Pensador, que fala sobre os perigos do consumo de drogas e o que leva a muitos jovens à embarcarem nesta canoa furada:

ninguém tá escutando o que eu quero dizer
ninguém está dizendo o que eu quero escutar
ninguém tá falando o que eu quero entender
ninguém tá entendendo o que eu quero falar”

INTERESSE Uma família onde todos têm interesse em conversar uns com os outros é uma família saudável. Como manter um bom nível de comunicação familiar?
Em primeiro lugar, é fundamental que haja respeito no relacionamento. Respeito pelas características que diferenciam um homem de uma mulher, um adulto de um adolescente ou de uma criança. Se acharmos que pessoas diferentes de nós somente porque são nossos familiares pensam e entendem as coisas igual a nós, o diálogo tende ao fracasso.
Em segundo lugar, é necessário que possua tempo, isto é, que se reserve uma parte da rotina diária para o exercício do diálogo. Durante às refeições, à noite. Desligar a TV ajuda – e muito – a aumentar o diálogo. E os smartphones e tablets também!
Em terceiro lugar, é importante que estimule o diálogo e, para isso, precisa saber ouvir, mesmo que não concorde ou não goste do que está sendo dito. Uma pessoa que não é aberta a ouvir mesmo um pai ou uma mãe, corre o risco de também não vir a ser ouvida, pois relacionamentos sadios são baseados na reciprocidade.

PRECONCEITOS – Não se esqueça! Você já foi adolescente um dia!
Para podermos compreender e aceitar o outro, é muito importante que saibamos nos colocar no seu lugar. Se estivéssemos passando pela mesma situação e tivéssemos a mesma história de vida que ele, será que agiríamos diferente?
O adolescente aos olhos de um adulto parece ser, muitas vezes, irresponsável, inconsequente e incapaz de compreender a importância de palavras como compromisso, horário e ter capacidade de pensar a longo prazo. Acreditem, isto é normal! Você já se esqueceu como foi quando você era adolescente?
Lembre-se, o adolescente deixou de ser uma criança mas ainda não é um adulto, é um período de transição. Quantas vezes não ouvimos “Esse menino só tem tamanho!” Mas é verdade, muitas vezes, têm-se um corpo quase de adulto mas a mente e os sentimentos ainda um tanto infantis. Para piorar este ser “mutante” chamado adolescente quando se comporta como criança logo ouve “Pára com isso! Onde já se viu, um homão desse tamanho agindo que nem criança!” ou se quer liberdades como a chave do carro ou chegar mais tarde em casa: “Nem pensar! Você está muito nova para isso!”

Portanto, nada de menosprezar o comportamento dos adolescentes sob sua responsabilidade pois, lembre-se, você também já foi um e se hoje você ri dos probleminhas que tinha, lembre-se que naquela época para você parecia um tremendo problemão e que podia, inclusive, interferir com a sua vida espiritual!

CONCLUSÃO – Sua família é sua primeira, mais verdadeira e importante rede social. Invista tempo e energia nela. Curta os bons momentos, compartilhe sua experiência de vida em tempo real, ao vivo e à cores em um relacionamento concreto ao invés de um virtual. Fortaleça seus relacionamentos pois desta forma, nenhuma crise ou adversidade irá separá-los, como está escrito no livro sagrado:

"É melhor haver dois do que um, porque duas pessoas trabalhando juntas podem ganhar muito mais. Se uma delas cai, a outra a ajuda a se levantar. Mas, se alguém está sozinho e cai, fica em má situação porque não tem ninguém que o ajude a se levantar. Se faz frio, dois podem dormir juntos e se esquentar; mas um sozinho, como é que vai se esquentar? Dois homens podem resistir a um ataque que derrotaria um deles se estivesse sozinho. Uma corda de três cordões é difícil de arrebentar.
O moço pobre mas sábio vale mais do que o rei velho e sem juízo que já não aceita conselhos." Eclesiastes 4.9-13

   

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Não creio no evangelho


Não creio em um evangelho que lança pedras contra quem pensa diferente.
Creio em um Evangelho que afirma que “aquele que estiver sem pecado, que atire a primeira pedra”.

Não creio em um evangelho que se acovarde diante das injustiças deste mundo.
Creio em um Evangelho que inspire seus seguidores a clamarem em alta voz “eu tive um sonho”.

Não creio em um evangelho que se amolde a uma sociedade corrupta e ache normal um homem escravizar o seu semelhante.
Mas eu creio - oh, e como eu creio! - em um Evangelho que transforma um traficante de escravos no compositor do mais belo hino cristão de todos os tempos.

Não creio em um evangelho que tenta subornar a Deus ou fazer dEle um serviçal para os meus caprichos.
Creio em um Evangelho que me ensina que Ele é o Senhor, e eu, seu humilde servo, mesmo quando não entendo sua vontade.

Não creio em um evangelho que separa homens em exércitos inimigos que se odeiam e se matam.
Mas creio no Evangelho que inspirou um homem a fundar a Cruz Vermelha e a salvar milhões de vidas nas guerras e conflitos.

Não creio em um evangelho focado na compra de jatinhos, mansões, carros de luxo ou emissoras de TV.
Eu creio em um Evangelho que constrói escolas, hospitais e vidas.

Não creio em um evangelho arrogante e soberbo, que tenta me convencer que sou superior ao meu semelhante porque “sou filho do rei”.
Eu creio em um Evangelho que me revela que sou um miserável pecador, egoísta e insensível, mas que apesar disto, Deus me amou de tal maneira que enviou seu filho – o Rei dos reis – para morrer em meu lugar.

Não creio em um evangelho que motive pessoas a cantarem que merecem conquistas e vitórias materiais.
Eu creio em um Evangelho que tem dado forças as pessoas a encararem a tortura e a morte de frente, no Coliseu, na Inquisição e agora na Síria, na Nigéria e no Iraque.

Sim, eu Creio em um outro Evangelho, diferente do que tem sido cantado por aí. Creio que tudo que sou ou tenho não é mérito meu, mas foi conquistado por Jesus na cruz. E, por isso, me inspira a cantar outra canção, aquele que o traficante de escravos arrependido um dia compôs:

Maravilhosa graça, como é doce o som
Que salvou alguém como eu
Estava perdido mas agora me encontrei
Estava cego mas agora vejo”

É neste Evangelho que eu creio. É por este Evangelho que eu vivo.
E acredite, não estou sozinho.
Somos muitos.
Somos a Igreja.
Somos cristãos.

P.S. Se você quiser conhecer a música e sua história, assista o vídeo. 
Vale à pena:


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Liberdade de Expressão - SQN


 

O mundo viu estarrecido o ataque de uma célula terrorista à redação do jornal francês Charlie Hebdo. Diversas pessoas mortas, entre elas alguns de seus principais cartunistas. Por quê tanta violência gratuita?


O Charlie Hebdo é um pequeno jornal satírico semelhante ao finado jornal brasileiro O Pasquim, de grande importância crítica na época da ditadura militar que nosso país viveu. Bom, isto é o que lemos e ouvimos na grande imprensa. Mas há diferenças. Grandes diferenças.

A França, diferente do Brasil, é um país com uma história milenar, uma orgulhosa identidade nacional e um forte sentimento secularista no Estado francês, uma tradição que tem origens na Revolução Francesa. Mas o que isto teria a haver com o atentado? Muita coisa.

Como disse, a França é um país orgulhoso de sua identidade, de sua cultura. Isto é tão forte que chega a ser folclórico o costume dos franceses não tratarem bem os turistas de outros países que lá vão deixar seu rico dinheirinho mas não sabem se comunicar na língua de Proust, Edit Piaf e Brigitte Bardot. Se o povo francês não consegue ver com bons olhos o turista estrangeiro que o visita, imagine o estrangeiro ou filho de estrangeiro que vive lá e ousa manter as suas tradições?

Luc Ferry, filósofo e ex-ministro da Educação da França, em entrevista ao jornal O Globo, publicada no dia 25/01/2014, lá vivem as maiores comunidades judias e muçulmanas da Europa: um milhão de judeus e entre cinco e oito milhões de muçulmanos.

Estes são grupos de forte tradição cultural e religiosa. Ou seja, não se deixam assimilar pela cultura dominante de um país, o que significa, manter e expor suas tradições, vestimentas, fé e até mesmo língua publicamente. Portanto, são vistos com desconfiança e até mesmo animosidade por uma razoável parcela da população. Sim, há um forte componente xenófobo e até mesmo racista na sociedade francesa. O crescimento de partidos de extrema-direita como o Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen é um exemplo disto. Mas por que há tantos muçulmanos na França?

A resposta está no colonialismo francês. A França colonizou – um eufemismo para invadir, expropriar, sugar as riquezas locais e levá-las para para Pais – diversos países africanos: Marrocos, Argélia, Costa do Marfim, etc. Boa parte deles de população muçulmana. Zidane, o grande jogador de futebol francês, é filho de argelinos.

Alguns destes países, como a Argélia, somente se tornaram independentes na segunda metade do século XX! Mas o que a França não contava é que a colonização gera um vínculo, um fluxo entre a metrópole e as colônias e não só de matéria-prima para a indústria francesa. Se a matriz leva as riquezas da colônia deixando-a na miséria, uma parte da população da colônia vai até a matriz em busca desta riqueza perdida na forma de melhores oportunidades. São os imigrantes das antigas colônias francesas na África, quase todas islâmicas. Mas não é isso que eles encontram.

Vivendo em bairros pobres e sem acesso a boa educação e emprego, jovens de origem árabe se sentem discriminados pelo resto da França que não os entende e nem aceita que eles cultivem suas tradições seculares.

Em meio a este barril de pólvora social, o jornal Charlie Hebdo publica charges grosseiras e ofensivas à fé não apenas de muçulmanos no distante Oriente Médio, mas também de milhões de cidadãos franceses. Isto não podia acabar bem.

Como não podia deixar de ser, o chefe de redação do jornal francês Charlie Hebdo, Gérard Biard, defendeu sua publicação das caricaturas do profeta Maomé:

“Sempre que fazemos um desenho de Maomé, de profetas ou de Deus, estamos defendendo a liberdade religiosa”, disse Biard em entrevista à emissora de TV norte-americana NBC – a primeira concedida pelo chefe de redação a uma emissora dos Estados Unidos desde o ataque ao jornal, no último dia 7, no qual 12 pessoas foram mortas.
"Dizemos que Deus não deve ser uma figura política ou pública, mas sim uma figura privada. Nós defendemos a liberdade de religião”, afirmou Biard, ao defender que a religião não deve servir como argumento político.”

Interessante. Para ele, suas ofensas a religião dos outros é uma forma de defender a liberdade religiosa! Fico imaginando como seria a sua agressão à liberdade religiosa, então. Na prática, o Charlie Hebdo não faz defesa de liberdade religiosa nenhuma. A chave para entender a opinião de Gérard Biard está na frase "Dizemos que Deus não deve ser uma figura política ou pública, mas sim uma figura privada”. Ou seja, o jornal defende que o discurso religioso seja privado, não público, isto é que fique preso, restrito às quatro paredes das casas das pessoas, enquanto ele tem a liberdade de publicar seu discurso anti-religioso. Liberdade de expressão? O pior é que o governo francês concorda com ele.

Em nome de uma pretensa liberdade de expressão, o Charlie Hebdo praticou um verdadeiro ato de agressão contra a sensibilidade de milhões de pessoas, atacando-as em suas crenças e valores. Mas esta liberdade de expressão é falsa, ou melhor é de mão única. Em 2004 foi promulgada uma lei proibindo o uso de símbolos religiosos em escolas públicas. Veja bem, a lei não está apenas proibindo a presença de crucifixos nas paredes – o que é compreensível, visto que o Estado é laico - mas sim que os próprios alunos não entrem nas escolas se estiverem usando um kipá, um crucifixo ou um shador. Na prática, a França proibiu milhões de pessoas de exercerem a liberdade de expressarem a sua fé. Não estamos falando de proselitismo religioso, mas sim de liberdade de expressão. Um jornal é livre para ofender a fé de um jovem que não é livre para ir à escola portando um crucifixo ou um véu islâmico.

Luc Ferry acaba por deixar isso claro ao afirmar na entrevista que “a França é a separação absoluta da religião e da política: a laicidade é praticamente sagrada”. Chega a ser um contrassenso. Na França o secularismo é sagrado. O sagrado não é.

Aliás, reparou que em todas as matérias publicadas na imprensa brasileira, as charges nunca aparecem? Suponho que seja porque as charges são realmente tão ofensivas,que dificilmente a maioria da população brasileira concordaria com o uso da liberdade de expressão para isso. Especialmente se vissem as charges contra a fé cristã. Se tem estômago, veja alguns exemplos:














Se isto é liberdade de expressão, o Charlie Hebdo expressou seu preconceito religioso, sua discriminação e sua intolerância laica contra a fé milhões de pessoas, muitas delas abandonadas pelo Estado francês. Veja que os criticados nestas charges não são políticos ou os líderes dos grupos terroristas. Não há nesta seleção charges de Osama Bin Laden (embora eles tenham feito, sim), mas sim ataques às crenças de milhões de pessoas, tanto cristãs como muçulmanas. Na prática, o Charlie Hebdo praticou diversos atos de violência intelectual, mas nem todos os agredidos são como os cristãos que dão a outra face.

O mundo ocidental ficou chocado com a reação violenta e injustificada contra o jornal. E se fosse no Brasil? E se fosse um jornal corintiano com charges neste estilo retratando palmeirenses? Alguém acha que o resultado seria diferente? Alguém defenderia no Brasil a liberdade do jornal corintiano de expressar seu preconceito?
Então, por que contra a fé de milhões de pessoas pode?


Para mais informações sobre a questão, sugiro os links abaixo:







terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O Moisés moderno de Ridley Scott


Vi ontem o filme Êxodo: Deuses e Reis, do consagrado diretor Ridley Scott (Blade Runner, Alien, Gladiador, etc.) e apesar da exuberância visual, fica um certo desapontamento no ar.

Scott tem sido um diretor um tanto errático: seus filmes sempre nos enchem os olhos, mas nem sempre a história é bem contada. Em Alien tudo deu certo. Em Prometheus, sua continuação, ficou o gostinho de que ficou faltando algo. Infelizmente, Êxodo está mais para Prometheus do que para Alien. E isto tem tudo a haver com as alterações que o diretor fez tanto na história bíblica quanto na história egípcia. Se você ainda não viu o filme e quer ver, leia o resto do texto por sua conta e risco: tem muitos spoilers neste artigo daqui para frente.

O filme começa de forma convencional, mostrando a data de 1300 a.C. (a data atualmente mais aceita para o Êxodo) narrando a escravidão dos hebreus no Egito por 400 anos. Até aí tudo bem. Mas, de repente, aparece uma cena de uma pirâmide sendo construída. Pirâmide? Em 1300 a.C.? Naquela época não se construíam mais pirâmides, mas sim mastabas – palácios funerários escavados na rocha, no famoso Vale dos Reis.

Daí em diante o filme segue a linha clássica da ficção hollywoodiana colocando Moisés e Ramsés como dois amigos que se amam com irmãos, sendo Moisés o predileto do Faraó. Você já viu isso antes, até mesmo em desenhos animados. Lembra-se do Príncipe do Egito? E é aí que a fraqueza do filme se acentua.

No filme, o velho faraó Horemheb é enterrado em uma tumba monumental cuja entrada é ladeada por estátuas de pedra gigantes. Eu conheço essa tumba... é o templo de Abu Simbel, construída por Ramsés II, quando ele era faraó. Ou seja, ela não existia quando Horemheb morreu, portanto, ele não foi sepultado lá. Então porque o filme tem esta cena historicamente falsa? Porque o filme quis retratar Horemheb como um faraó forte, poderoso e sábio como contraste a Ramsés II, retratado como fraco, inseguro e traumatizado pela falta de demonstração de amor paterno. O problema é que Ramsés não era assim. Ele foi o maior e mais poderoso faraó que o Egito já teve, construindo monumentos magníficos, vencendo os hititas na lendária batalha de Kadesh. Ramsés II era extramente vaidoso e seguro de si, bem ao contrário da representação feita no filme.

Se a figura de Ramsés foi bastante modificada em relação ao que a história do Egito registra, a de Moisés mantém pouca ou nenhuma relação com o texto bíblico. O Moisés do filme é o clássico herói moderno: ético, porém cético, que parte por força das circunstâncias em sua jornada solitária, lutando contra tudo e contra todos, até mesmo contra Deus, e prevalecendo no final. Para satisfazer o gosto popular, Moisés não é um velho: é jovem, não usa um cajado – ele o deixa em Midiã com seu filho - mas sim uma espada egípcia! O Moisés do filme não é um velho homem de fé, mas um um jovem guerreiro confiante em suas capacidades.

Para que Moisés se encaixe neste figurino trechos inteiro do relato de Êxodo tiveram de ser desconsiderados:

1) na Bíblia Moisés não é um herói idealizado, mas possui falhas de caráter: mata um egípcio em uma briga e enterra o cadáver para não ser descoberto. Quando descobrem o crime, foge para Midiã. No filme, Moisés mata um soldado quando este descobre que ele é hebreu e volta normalmente para o palácio. Ele não foge, protege Miriã e é expulso para o deserto por ordem do faraó – bem mais nobre, porém bem mais artificial e fantasioso.

2) no encontro com Deus na sarça ardente, no livro do Êxodo Deus se revela como o Deus de seus antepassados e lhe dá uma ordem detalhada do que ele deve fazer para libertar seu povo do Egito. Inclusive lhe dá provas de que estará com ele fazendo sinais com seu cajado. Já no filme, Deus diz muito pouco, quase nada, de quem é e do quer que Moisés faça para libertar seu povo. Pior: Moisés diz que é um pastor e Deus diz que não precisa de um pastor, mas sim de um general. Como é? Qualquer pessoa que tenha estudado minimamente a Bíblia sabe que o padrão divino de liderança é o pastor de ovelhas – Moisés era pastor, Davi era pastor, Jesus se apresentava como “o Bom Pastor”. No Êxodo vemos Moisés pastoreando ovelhas no deserto durante 40 anos como uma espécie de preparação que Deus lhe dá para poder guiar seu enorme povo pelo deserto e no filme, vemos Deus dizendo que não quer um pastor de ovelhas?

3) Na Bíblia, o velho Moisés reluta em aceitar a sua missão a ponto de irritar Deus. No filme, aceita imediatamente. No texto bíblico, ele volta para o Egito com esposa e filhos. No filme, ele volta sozinho. Na Bíblia, ele faz sinais com seu cajado. No filme ele faz atentados com um grupo guerrilheiro. Na Bíblia Moisés nunca viu o rosto de Deus, embora conversasse com ele face a face. No filme, Deus sempre aparece a Moisés como uma criança. Uma criança aparentemente mimada e sem sentimentos mais profundos pelo povo hebreu.

Por que tantas mudanças? Qual o seu objetivo ao descaracterizar assim não apenas a Bíblia como a história egípcia? Diretores não resistem a tentação de, ao filmarem histórias já contadas anteriormente, de darem o seu toque pessoal ou, como eles dizem, a sua “visão” da história, das metáforas e alegorias que elas encerrariam. Muitas vezes o resultado é não apenas inferior como também uma descaracterização da obra original. E qual teria sido a visão de Ridley Scott? Acredito que o filme seja o retrato de nossa época. O homem moderno sonha em ser como o Moisés do filme: senhor de si, guerreiro, forte, autossuficiente, com seu próprio senso de justiça. Não há espaço para um Deus Soberano sobre tudo e sobre todos, inclusive sobre a sua vida mortal. E quando se defronta com esse Deus o vê como uma criança mimada, uma poderosa criança mimada e caprichosa. Um Deus com “d” minúsculo, diante do qual se pode irar, retrucar, discutir. Um deus que 'um reflexo de si mesmo.

Já o Deus que o livro do Êxodo descreveu no encontro com Moisés é diferente, bem diferente. É um ser imaterial, sem forma, que não pode ser contido ou ignorado. Que tem plena consciência de quem é: o Ser Perfeito e Imutável, descrito no nome que se apresentou a Moisés: Ehyeh Asher Ehyeh: Eu Sou o Que Sou (em hebraico: אֶהְיֶה אֲשֶׁר אֶהְיֶה). O Ser infinitamente puro que disse a Moisés quando este se aproximou no monte Horebe: “tira as sandálias dos teus pés porque o lugar em que te encontras é uma terra santa.”

O Moisés do Êxodo compreendeu a sua pequenez diante do Ser que o comissionava e diante da missão para o qual era comissionado. Por isso foi escolhido. Ele era apenas o instrumento, Deus era o ator por trás da história que libertaria seu povo. O ceticismo e a vaidade de Ridley Scott não lhe deixaram ver a riqueza e a veracidade da narrativa do Êxodo e o forçaram a recontar a história de uma forma que fosse mais palatável para uma plateia igualmente cética e vaidosa. Por isso ele fracassou. Ao recontar a história de Moisés como um herói idealizado, perdeu-se a dimensão humana do personagem. Falta emoção ao filme. Irônico: sua vã tentativa de fazer uma descrição “verossível” do Êxodo, resultou em um uso indiscriminado de mistificações, deturpações e omissões, as quais acabaram por mostrar como o velho texto bíblico, ao descrever os personagens, suas falas e ações, é muito mais lógico, isento e realista do que qualquer filme ou obra de ficção posterior. Por quê? Porque descreve pessoas e fatos reais e não personagens idealizados. Obrigado, Ridley!


Uma dica Ridley: ao invés de ter contratado o Christian “Batman” Bale para o papel, não teria sido melhor o Ian “Gandalf” McKellen? Não me leve a mal, Christian Bale é um excelente ator. Mas imagine a cena: ao invés do Moisés a cavalo e de espada na mão cavalgando sobre o leito seco do Mar Vermelho, poderia estar pé de cajado na mão à la Galdalf gritando para o exército do faraó: “You shall not pass!” Que tal, hein? Não? Bom, deixa pra lá. Foi só uma sugestão.